Capítulo 8


Começava a sessão de julgamento dos presos políticos. O auditor era um civil de mais ou menos 40 anos, ladeado por oficiais do Exército. O promotor apresentava a denúncia. Depois, falou o advogado de defesa, criminalista Pádua Barroso, o qual ironizou: “Esses jovens pensam que o céu é perto e o mar é raso” e acrescentou : “esse papel aqui não serve nem para limpar …”

A advogada  Wanda complementou a fala de Pádua Barroso , minimizando a denúncia do promotor. E não demorou muito, reunidos numa sala o conselho de sentença deu o veredito de um ano de prisão para cada um.

Era o dia 24 de junho de 1970. O Brasil atravessava uma conjuntura politica difícil de ditadura radicalizada , com a suspensão de todos os direitos civis e democráticos. Por isso, a contestação do regime militar. Os estudantes tinham um papel importante. E as universidades era o centro do movimento, onde diversas facções de esquerda davam suas palavras de ordem como ABAIXO A DITADURA, ABAIXO IMPERIALISMO etc.

Diversas lideranças politicas do antigo Partido Comunista Brasileiro-PCB resolveram criar seus movimentos guerrilheiros como Carlos Marighela, ex deputado federal pela Bahia que criou a Aliança Libertadora Nacional, uma organização que tinha suas ações centradas em sequestros, assaltos a banco e outros. Esses movimentos eram inspirados na revolução cubana, que deu certo na América Latina. Houve ainda VAR – PALMARES e MR8 , liderados por exemplo pelo capitão do Exército Carlos Lamarca. Todos mortos por agentes do DOPS.

Um partido comunista do Brasil implantava  a guerrilha do Araguaia, no Pará. Mas a guerrilha foi destroçada por tropas do Exército. Havia no Maranhão a Ação Popular que seguia a linha da revolução chinesa. A AP  surgiu de movimentos de pastorais da igreja católica para depois tornasse marxista-leninista.

As passeatas começam a tomar conta do pais em lugar da guerrilha vencida pelas forças militares. O povo nas ruas derrubou a ditadura em 1985. As liberdades democráticas foram restabelecidas e o estado de direito.

 

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O Julgamento foi em Fortaleza.

 

BENONI JÁ MORREU E NÃO VOU NARRAR AS CIRCUNSTÂNCIAS DE UM CRIME DO QUAL FOI VITIMA DENTRO DA SUA PRÓPRIA CASA PRATICADO POR UM CASEIRO. SE O INTERNAUTA QUISER SABER, DIGITE NA INTERNET O NOME BENONI ALENCAR. LÁ, TERÁ UMA COBERTURA DA MORTE DE BENONI FEITA PELA SUA FILHA, JORNALISTA CLARISSA TOMÉ.

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Capítulo 7


 

Hoje é quinta-feira, dia de banho de sol e visita no quartel. De manhã ,jogamos futebol de salão ,eu e Geraldo contra Benoni e Antônio Jose , dois contra dois. Uma hora de relógio correndo na quadra atrás da bola. Sou o pior jogador. Canso logo e não aguento o ritmo do jogo. Para mim, o mais veloz é Geraldo, exatamente o mais velho. Paramos para o intervalo e continuamos a pelada até cansar. Perto do meio dia, fomos nos recolher ao xadrez. O sargento do dia chama a nossa atenção para o horário do banho de sol.

Tomamos banho e vamos esperar o almoço poucos minutos depois, a corneta toca anunciando a chegada do carro com a refeição. O almoço é arroz, feijão e bife de carne de gado e algumas pedaços de tomate. Melhor que lá em casa. Hoje, eu fico pensando como conseguir sobreviver comendo a baixo do necessário para viver, comparando ontem com hoje, comemos mais e melhor.

Antônio José comanda a conversa e dá explicações sobre a vã filosofia, da qual era estudante na faculdade. Ele organizou uma escola para nós mesmos, onde estudávamos de manhã após o café. Como ex seminarista, ensinava Latim. E as outras matérias eu não me lembro quem ensinava . Caímos no sono após o almoço e nos levantamos na hora das visitas. O sentinela abriu o portão e tive uma surpresa mais que agradável. Meu pai , que me visitava estava acompanhado de uma ex namorada minha, que morava no Rio de Janeiro e foi me visitar. Mercedes era mais velha do que eu cinco anos.

Ela me falou que viera  buscar os pais dela  que moravam em Parnaíba. Iria viajar nos próximos dias e me  procuraria depois que viesse de lá. Mercedes me apareceu no quartel  fora do dia de visita, dizendo que viajaria no dia seguinte. Só que veio a ordem para soltar Antônio José, eu e Ventura que estava preso no Quartel da Guarda Civil com Osvaldo Rocha . Os outros permaneceram presos.

Ainda deu tempo pra sair com Mercedes pelo centro de Teresina. Fiquei sentado com ela no banco da Praça Pedro ll , olhando para o quartel , já com saudade da vida de preso político. Tinha tanta coisa pra conversar com ela na véspera da viagem de Mercedes, que o tempo foi muito escasso. De volta, dei um beijo nela e Mercedes me disse que tinha compromisso. Anos após o reencontro com Mercedes,  eu soube que ela estivera outra vez me procurando. Imagino que era para me levar para o Rio de Janeiro.

E eu estava vindo justamente do Rio de janeiro seis anos depois desse nosso reencontro. Mas nunca nos cruzamos por lá. Às vezes eu já familiarizado com a cidade grande, parava pra olhar se ela não aparecia no meio daquela multidão. Nunca mais a vi. Não era nosso destino casar. Me recordo dela e foi o maior amor da minha juventude. Mercedes é branca, olhos esverdeado nariz adunco.

 

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Capítulo 6


Só vim ver Benoni dois meses depois da decretação da prisão preventiva pela Auditoria da Décima Região Militar, com sede em fortaleza, para onde fomos algemados para interrogatório. No DOPS o interrogatório ocorreu com a tortura de Osvaldo Rocha, um militante socialista já experiente. Nos outros, marinheiros de primeira viagem, sofremos apenas torturas psicológicas como ameaças de torturas físicas.

Eles soltaram João Vasconcelos, o mais novo entre nós, transformaram ele e outros em testemunha de acusação para robustecer a denúncia. Tudo leva a crer que induziram nossos companheiros mais jovens a acusar Benoni como líder do movimento político.

Benoni, Osvaldo Rocha, Ventura, Antônio José, Geraldo Borges e eu permanecemos presos em preventiva. Separaram o grupo em dois. No quartel da Guarda Civil, ficaram Osvaldo e Ventura. No quartel da PM, o nosso grupo de Teresina. Começava a rotina dos presos políticos : Café da manhã, almoço, visitas, banho de sol duas vezes da semana e jantar.

Geraldo Borges, o mais velho dentre nós era odiado pelo comandante da PM, tenente – coronel do exercito  Duarte Rosa. Ele chegou a chamar Geraldo de asqueroso com sua voz fanhosa, própria dos Nazistas.

A corneta tocava no quartel as 22 horas da noite para anunciar a hora  do silêncio. Seguindo a ordem da corporação militar, fechávamos a luz da nossa cela e dormíamos. Numa dessa noites fomos acordados pelo barulho de um soldado bêbado, que fora preso na zona alegre da cidade. Ele foi jogado numa solitária que ficava dentro do nosso xadrez de tamanho razoável.

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Benoni Alencar

Capítulo 5


Não imaginava que seria preso por agentes do DOPS . Estava sendo vigiado e não sabia. A ditadura militar radicalizou criando o AI-5 em 1969. Era uma resposta ao crescimento da guerrilha urbana e rural no brasil.

Pois bem, estávamos discutindo como localizar Benoni, que estava preso com um dirigente da AP na região do Pindaré no Maranhão.

De repente, homens armados capitaneados pelo delegado do DOPS, Astrogildo Sampaio, oficial da PM do Piauí, deram ordem de prisão e levantamos os braços na mesa de um  bar no meio do Rio Parnaíba.

Entramos na lancha, sob a escolta de Astrogildo e outros homens. Fomos levados para a margem do Rio que dá para Teresina. Passageiros e barqueiros observavam os policiais nos levando para dentro carros . Eram eu, Antônio Jose, João Vasconcelos ,e Ventura , este, também veio do Pindaré atrás de Osvaldo Rocha.

Levaram-me e João Vasconcelos para a Delegacia Central da Secretaria de Segurança Pública. E Antônio Jose e Ventura , para outro local, como eu já era jornalista conhecido na cidade, tive direito a xadrez  especial e meu companheiro foi preso no xadrez  com ladrões e bandidos , localizado na frente da minha cela.

 

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Rio Parnaíba.

Capítulo 4


Éramos jovens de mais ou menos 20 anos, eu e Benoni, quando nos conhecemos em Teresina, Piauí. Benoni nasceu em Valença, uma cidade distante da capital, a mais de 200 km.

      A família dele, de muitos irmãos, deve ter se mudado para Teresina, ainda adolescente. Digo isso, por suposição, porque me lembro tê-lo conhecido  na Praça  Pedro Segundo, a principal da cidade, naquela época. Falo em meados dos anos 60. Eu nem era  ainda jornalista, carreira que comecei aos 20 anos. 

       Benoni era alto para os padrões nordestinos e daqueles tempos. Tinha 1,70, cor de jambo, cabelos lisos e ligeiramente gago. Trabalhava numa loja de confecções e moda masculina. Era o que se chamava de balconista, o que exige da Pessoa dom para venda, muito papo e comunicação. Por isso, era extrovertido.

      Conversamos, guardo na memória,  sobre a criação de um grêmio literário, que nunca passou de uma ideia. A partir daí, nos tornarmos amigos e a amizade foi se estreitando com os anos. E passou o tempo tão rapidamente, que ele já era bancário, e escriturário do Banco da Amazônia, passando no concurso em primeiro lugar. Jornalista iniciante, eu me tornava mais íntimo do amigo. Até fomos colegas de turma, no Liceu  Piauiense à noite. 

       Foi ai que começou nossa militância política pela organização clandestina Ação Popular-AP. seu talento de líder era visível.interessava-se pelas pessoas como poucos. Tanto que envolveu logo em um episódio em defesa de moradores do bairro São Cristóvão, custando-lhe um processo pela Delegacia de Ordem Política e Social-DOPS.

      O Brasil vivia mergulhado numa ditadura militar e fascista desde 1964. os militares derrubaram o governo de João Gourlat, um presidente de um governo popular. Era a tragédia  de nossa geração e do povo, que perderá as liberdades democráticas e o estado de direito. A História está aí para mostrar 21 anos de ditadura, que Deus nos livre de outra.

Capítulo 3


          O internauta deve ter estranhado eu não ter apresentado a mulher de Benoni,Silvia Thomé, personagem desta narrativa. Benoni já é viúvo há mais ou menos 20 anos.na casa dele em Rio das Ostras, vi um retrato de Silvia.                 Era uma mulher bonita, branca, olhos verdes e estatura mediada. Bem feita de corpo como se fora torneada.
Conheci-a na Casa do Estudante Universitário (CEU).eu estudava Direito e era residente.anteriormente,a CEU ficava na Lapa, no centro histórico do Rio. Depois, foi transferida para Botafogo,no antigo prédio da Escola de Enfermagem Ana Nery. Foi nessa época, que fui admitido como morador. tinha me separado de Laurentina, que estudava comigo na mesma faculdade.
Via constantemente Silvia subindo e descendo as escadas da CEU, acompanhada de amigos que estudavam diversos cursos superiores. Ela me chamou a atenção por sempre esta com amigos mais que mulheres e percebi nela uma militante natural do movimento feminista, que então se iniciava no Brasil. Soube depois que estudava Filosofia ela, uma mulher libertária, muito rara ainda numa cidade grande.
Benoni começou a namorar com ela e em pouco tempo nasceu a primeira filha de três que tiveram. Clarissa é o nome dela, hoje jornalista da sucursal da FOLHA DE SÃO PAULO. Segundo o pai, Clarissa cobria para o jornal Paulista a guerra entre traficantes e policiais nos morros.
Silvia tornou-se jornalista por influência de Benoni.com o desemprego dele de O GLOBO, resolveram morar num distrito de Niterói e fundaram o semanário FOLHA OCEÂNICA, que dava para sustentar a família.
E os anos foram passando inexoravelmente. E mudavam de distrito para distrito como que buscando algo desconhecido. Benoni separou-se de Silvia, mas continuavam trabalhando juntos no jornal.Ela tomava conta da parte administrativa e ele, como bom vendedor que era, conseguia os anúncios para manter o empreendimento.
Eis que um certo dia, cada um para seu lado, a poeta Silvia Thomé é assassinada na praia a à noite, por dois indivíduos com quem estivera bebendo no calçadão. a notícia me pegou de surpresa através da televisão aqui em São Luis.
Numa de suas habituais visitas, aqui, a mim, Benoni me contou constrangido o caso e afirmou que se encontra-sse eles em qualquer lugar, os mataria. Um deles era filho de um coronel da Polícia Militar. Em homenagem a ela, líderes feministas ergueram uma estátua de Silvia Thomé na região distrital de Niterói

O artigo que clarissa, filha de silvia Thomé , publicou no Estado de São Paulo:

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A única julgada
‘Minha mãe foi morta por andar à noite, parar num quiosque e – cúmulo da provocação – ser mulher’

CLARISSA THOMÉ, O Estado de S.Paulo
06 Abril 2014 | 02h09
“Conheci o que era maldade no carnaval de 1994. Na Quarta-feira de Cinzas, um pescador resgatou o corpo de minha mãe do mar de Piratininga, na Região Oceânica de Niterói, no Grande Rio. Ela estava nua, a calcinha enrolada no pescoço. Havia sido atacada no calçadão, a 600 metros da nossa casa.
Minha mãe, a jornalista Sílvia Thomé, tinha saído para andar na praia à noite, porque tinha uma reunião de trabalho bem cedo no dia seguinte – repórter de economia, deixara a rotina do jornalismo diário para se dedicar a um sonho que ela e meu pai dividiam havia algum tempo: um jornal de bairro, que fizesse “jornalismo de verdade”, e não fosse apenas “espaço para anúncios”. Juntos, tocavam o Caderno Oceânico.
Aos 40 anos, tentava parar de fumar e as caminhadas a ajudavam a reduzir a ansiedade. Ela reclamou do horário marcado para a reunião – impediria o exercício matinal. Meu pai, ao deixá-la em casa (já estavam separados), sugeriu que caminhasse à noite. Seguiu o conselho. Depois de andar, parou com minha irmã num quiosque. Minha mãe tomou uma cerveja, Giovana, uma Coca-Cola. Giovana voltou mais cedo; queria ver um filme na tevê. Minha mãe não voltou mais.
Nunca saberemos o que de fato ocorreu. Quando ela foi encontrada, calçava uma das sandálias; a outra estava junto ao quiosque – o que deixa claro que a agressão começou ali. Mas numa era pré-luminol (substância química que realça vestígios de sangue, mesmo depois de o ambiente ser lavado), pré-DNA, só tínhamos evidências. Nenhuma prova.
O que sabemos é que nossa mãe lutou muito contra seu agressor. O laudo do Instituto Médico Legal mostrou que ela sofreu hemorragia interna por perfuração do baço, provocada por espancamento. Teve o braço direito quebrado; tinha um grande hematoma na testa. Por fim, o sufocamento – constrição do pescoço é o termo técnico.
Como o corpo foi jogado no mar e passou um dia inteiro na areia, sob o calor daquele fevereiro infernal, os peritos não concluíram se ela foi ou não vítima de violência sexual. E por muito tempo isso me confortou, de alguma forma. Pelo menos essa dor a mamãe não passou, eu dizia para mim mesma, como se fosse possível encontrar consolo em meio à tragédia.
Sabemos ainda que ela foi morta por ser mulher. Se meu pai tivesse decidido tomar uma cerveja no quiosque, não teria sido importunado. Não teria ouvido gracejos. Teria voltado para casa. Minha mãe era presa fácil: um metro e cinquenta e cinco, pouco mais de 40 quilos. Sozinha, num trecho escuro do calçadão – o refletor naquele ponto da praia estava quebrado havia semanas.
Restamos três meninas apavoradas – eu tinha 18 anos, Giovana, 16, Maíra, 13. Além de perder nossa mãe, perdemos nossa casa. O assassino ainda estava solto. Como caminhar naquele calçadão? Como mergulhar naquelas águas? Fomos morar com nossos avós.
Uma morte violenta como essa deixa marcas profundas – todos nos sentíamos culpados. Giovana por tê-la deixado sozinha. Meu pai por ter sugerido a caminhada noturna. Eu e Maíra porque estávamos viajando – há 20 anos não viajo no carnaval. Meu avô, que estava no início do processo de Alzheimer, desligou-se de vez da realidade. Morreu dois anos depois.
Em 2004, um suspeito foi absolvido no tribunal do júri. Na verdade, só minha mãe foi julgada naquele dia. A promotora chegou a perguntar: “Mas ela estava sem sutiã?”. Estava. E ninguém tinha nada a ver com isso. E a roupa que usava não justificava agressão alguma. Minha mãe também era culpada. “Isso era hora de estar na rua? O que ela estava querendo, bebendo sozinha num quiosque na praia?”, ouvimos muitas vezes.
Falar sobre esse tema é muito doloroso. Giovana e Maíra muitas vezes disseram que nossa mãe havia morrido de câncer. Encerrava o assunto. Sustava os por quês. E poupava do inevitável olhar de pena. Eu sempre escolhi a verdade. Essa é a nossa sociedade – machista, preconceituosa, em que a impunidade é regra. Temos de lidar com isso para poder transformá-la. Passei a usar uma estratégia: falo sobre o crime como quem comenta uma matéria. Como se não tivesse acontecido com a gente.
A primeira vez que menti sobre a morte de minha mãe foi para meu filho, que tinha 4 anos quando quis saber “como a vovó morreu”. Assalto, filho. Mas o bandido está preso. Não sabia como explicar para uma criança que alguém pode ser morto só por ser mulher. E que quem faz uma coisa dessas escapa ileso.
Decidi escrever sobre a minha mãe ao ler o depoimento da professora Daiara Figueroa, no Facebook. Em meio a tantas fotos com cartazes “não mereço ser estuprada”, o dela surgiu assustador, com o verbo no passado. Escrevi em solidariedade. Acabei descobrindo que também não estava sozinha – foram mais de 7 mil compartilhamentos, dezenas de mensagens de apoio, e o que mais me impressionou: relatos de violência sexual, alguns cometidos na própria família.
Depois de 20 anos, a memória embaralha, as lembranças se confundem, muita coisa se perde. Há algum tempo uma amiga de infância da minha mãe perguntou: “Lembra da gargalhada dela?”. Eu já não lembro. Mas não vou me esquecer nunca do amor intenso que ela sentia por nós. E é por causa desse amor que ficamos inteiras, unidas, apoiadas sempre num pacto quase infantil, feito no momento em que enterramos nossa mãe – juntas somos uma. CLARISSA THOMÉ É REPÓRTER DO ESTADO NO RIO”
Na minha análise do fato, ainda sob o impacto de um crime hediondo, acho que eles mataram a mulher do meu amigo, por instintos homossexuais. Não sou psicólogo, no entanto, com a minha experiência de vida e de machista de uma sociedade patriarcal, o comportamento libertário e revolucionário de Silvia agrediu a mentalidade, doentia e mórbida deles. Tenho a impressão que ela não foi violentada sexualmente. A motivação central do crime foi ela encarnar como mulher àquilo e eles não eram sexualmente, isto é, sem quaisquer preconceitos sexuais, os criminosos viam nela uma concorrente em um gênero ao qual não pertenciam naturalmente.

Capítulo 2


Benoni morava na periferia. Não me surpreendi pelo seu gosto de viver entre os pobres. Quando ele esteve em São  Luis  me visitando, ele e uma amiga minha fomos comer em um restaurante de classe média  na Lagoa da Jansen, e ele se recusou a entrar, apontando para um botequim que havia no outro lado da rua. Foi muito esforço  para convencê-lo a entrar conosco na casa de shows dos ricos.

A casa de Benoni era uma antiga  construção  de alvenaria, localizada atrás de um morro, o qual, segundo ele, fora um vulcão em tempos milenares. Meu amigo tinha construído duas suítes sobre a casa, que serviam de aluguel para turistas e acolher as filhas e uma irmã, nos fins de semana.

Acabou de chegar agora sua amiga Luzia, que trabalhava com ele, como psicóloga do Fórum, e nos levara no Fiat dela até a morada de Benoni. Era uma carioca muito compenetrada das suas origens.

–  Bom dia, disse com seu jeito de carioca

– oh minha amiga, saudou Benoni, com sua comunicação peculiar. Vamos dar uma volta hoje à noite pela cidade para Samuel conhecer.

– É  mesmo, ficar só na periferia não é  bom. Preciso conhecer Rio das Ostras, por dentro e por fora. q

E passamos a conversar sobre várias  coisas que não me lembro no momento. Luzia revelava tensão, porque deixava o filho sozinho em casa, olhando televisão.

Outra faceta de Benoni  era encher a casa de pessoas carentes. Havia dois homens que o ajudavam a superar a solidão. Eles ficaram muito contentes com a minha chegada e a de Katiane. Um deles, apelidado de Montana, que demonstrava um largo sorriso quando ficava perto de Katiane.

– Cuidado com essa menina cara,  alertei para ele, que sorriu e saiu de bicicleta para a rua

– Ele tá querendo ela Samuel, disse brincando Benoni.

Uma coisa que não gostei foi a comida que comprávamos numa casa na periferia que vendia refeição.Não comir,aliás, não passei das primeiras colheres e rejeitei a alimentação. Falei para Benoni do meu desagrado e ele concordou.

Fomos ao passeio num bar em que Benoni frequentava antes de ter um AVC, no lado direito, ficando  paralítico, com a perna se arrastando e torta. Nisso,tivemos destino parecido, porque eu já   era amputado.

– Esse mar aqui é  uma beleza, eu disse quando estávamos sentados na mesa do bar.

– Aqui, Samuel, era onde eu bebia e fumava todos os dias antes do AVC. E essa menina aqui ao lado foi minha namorada, disse apontando para uma moça magrinha, que dançava recitando poemas.

Nessa hora,Benoni pediu pra  mim recitar  uma das ,minhas poesias que ele gostava. Só que eu recitei outro sobre a cannabis  sativa: “Ela Ela Ela|Proibida Proibida Proibida|Liberta Liberta Liberta”

O fumaceiro de cigarro parecia uma nuvem entre nós,  e a cerveja corria solta, de vez em quando contemplava as águas  ruidosas da Baia de Rio Das Ostras. Ao longe via-se luzes,  eu perguntei aonde ficava a iluminação  longínqua. E me responderam que as luzes eram de cidades próximas. Fiquei interessado em conhecê-las. Mas, só fui até  Macaé, pois viera para passar apenas uma semana.

De volta pra casa,ouvi Luzia dizer para Benoni :

– Rapaz,tu achas que eu vou abrir minhas pernas de graça pra homem?

Olhei para Benoni e observei que ele dera uma cantada indireta na amiga. E o Fiat seguia de regresso para a periferia de Rio das Ostras. Já estávamos calibrados pela cerveja e Katiane, ao meu lado, demonstrava isso também. Em poucos minutos, chegamos  à casa.

Benoni era  jornalista e trabalhara  nos maiores jornais cariocas, dos quais fora demitido por participar de movimentos  grevistas. Já  pai de três filhas, casado com a jornalista Silvia Tomé, sem conseguir mais emprego em jornais, resolveu ir para Niterói tentar uma nova vida como proprietário de um jornal distrital, intitulado FOLHA OCEÂNICA. Ele é a mulher faziam o jornal semanal e a receita dos anúncios dava para sustentar a família.

Ele gostava de fazer projeto de jornal. No último dia da viagem, discutimos a possibilidade de criar uma revista de circulação nacional. Ele já tinha na cabeça todos os detalhes da ideia. Teria até correspondente internacional. Acertei com ele enviar 7 mil reais para construir a redação e uma suíte para mim morar lá. Só que a distância de estar lá e aqui em São Luís tornava o projeto impraticável. Mas cheguei a mandar o dinheiro e ele fez a construção anexa à casa.

BRio das Ostras

Benoni – Um irmão que não tive


Capítulo Um

 

A comissária de bordo tentava acalmar os passageiros, com a turbulência forte do avião, como se fosse cair. Eu, sentado na poltrona da frente ,como sempre , estava com medo. Ao meu lado ,uma acompanhante  nessa viagem ,não demonstrava qualquer nervosismo.

Rapidamente, o tempo ficou bom e chegamos a Brasília, a  às 5:00 horas da manhã  no aeroporto, de onde saímos para tomar um café no restaurante. Íamos esperar uma conexão para  ao Rio de Janeiro. Dia  claro ,fomos avisados que era hora de embarcar. Duas horas depois ,aterrissamos no Tom Jobim. Cadeirante que sou, fui levado pelos funcionários da companhia aérea para o saguão, acompanhado pela Katiane.

Sem demora, contratei o motorista de uma kombi, que nos transportou até  Rio  das Ostras,  Região dos Lagos ,a duas horas do Rio de Janeiro. Atravessei  pela primeira vez a Ponte Rio-Niterói, ainda com pouco trânsito, porque, ainda era cedo. Telefonei do celular para meu amigo e ele me respondeu que a viagem duraria  duas horas.

Katiane cochilava no banco traseiro, e eu como não durmo em viagem, conversava com o motorista. Ele era gordo e jovem, dirigia com velocidade que me dava medo, pois o veículo  já era  bastante usado.Com minha curiosidade natural, contemplava

as paisagens verdes  dos povoados  por onde passávamos.

– Quando eu voltar, disse o motorista, ainda vou fazer outras corridas.Tem que ser assim, irmão, a vida está  difícil e temos que trabalhar muito.

– Eu sei que trabalhar não enriquece, mas pelo menos nos livra da fome ,falei brincando e rindo.

– Melhor do que assaltar, aqui , no Rio, tem muito ladrão. Esses morros ai estão cheios de marginais .

– Meu amigo, foram os ricos que produziram a pobreza e a miséria. Agora, estão colhendo o que plantaram.

Coçando a cabeça, o gordo correndo na pista como se fosse infinita, respondeu :

– Mas, eles estão pagando pelo que fizeram com o povo                 – Também  acho ,disse olhando pra ele

E a kombi antiga me surpreendia com a velocidade que ele impulsionava, como se não tivesse destino.Exatamente, decorridas duas horas, chegamos a Rio das Ostras e paramos na frente do Forum, onde Benoni trabalhava e já tinha me visto  em pé a à frente do prédio. Paguei a viagem mais cara comparada ao ônibus ,porém, mais rápida.