Capítulo 4


Éramos jovens de mais ou menos 20 anos, eu e Benoni, quando nos conhecemos em Teresina, Piauí. Benoni nasceu em Valença, uma cidade distante da capital, a mais de 200 km.

      A família dele, de muitos irmãos, deve ter se mudado para Teresina, ainda adolescente. Digo isso, por suposição, porque me lembro tê-lo conhecido  na Praça  Pedro Segundo, a principal da cidade, naquela época. Falo em meados dos anos 60. Eu nem era  ainda jornalista, carreira que comecei aos 20 anos. 

       Benoni era alto para os padrões nordestinos e daqueles tempos. Tinha 1,70, cor de jambo, cabelos lisos e ligeiramente gago. Trabalhava numa loja de confecções e moda masculina. Era o que se chamava de balconista, o que exige da Pessoa dom para venda, muito papo e comunicação. Por isso, era extrovertido.

      Conversamos, guardo na memória,  sobre a criação de um grêmio literário, que nunca passou de uma ideia. A partir daí, nos tornarmos amigos e a amizade foi se estreitando com os anos. E passou o tempo tão rapidamente, que ele já era bancário, e escriturário do Banco da Amazônia, passando no concurso em primeiro lugar. Jornalista iniciante, eu me tornava mais íntimo do amigo. Até fomos colegas de turma, no Liceu  Piauiense à noite. 

       Foi ai que começou nossa militância política pela organização clandestina Ação Popular-AP. seu talento de líder era visível.interessava-se pelas pessoas como poucos. Tanto que envolveu logo em um episódio em defesa de moradores do bairro São Cristóvão, custando-lhe um processo pela Delegacia de Ordem Política e Social-DOPS.

      O Brasil vivia mergulhado numa ditadura militar e fascista desde 1964. os militares derrubaram o governo de João Gourlat, um presidente de um governo popular. Era a tragédia  de nossa geração e do povo, que perderá as liberdades democráticas e o estado de direito. A História está aí para mostrar 21 anos de ditadura, que Deus nos livre de outra.

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Capítulo 3


          O internauta deve ter estranhado eu não ter apresentado a mulher de Benoni,Silvia Thomé, personagem desta narrativa. Benoni já é viúvo há mais ou menos 20 anos.na casa dele em Rio das Ostras, vi um retrato de Silvia.                 Era uma mulher bonita, branca, olhos verdes e estatura mediada. Bem feita de corpo como se fora torneada.
Conheci-a na Casa do Estudante Universitário (CEU).eu estudava Direito e era residente.anteriormente,a CEU ficava na Lapa, no centro histórico do Rio. Depois, foi transferida para Botafogo,no antigo prédio da Escola de Enfermagem Ana Nery. Foi nessa época, que fui admitido como morador. tinha me separado de Laurentina, que estudava comigo na mesma faculdade.
Via constantemente Silvia subindo e descendo as escadas da CEU, acompanhada de amigos que estudavam diversos cursos superiores. Ela me chamou a atenção por sempre esta com amigos mais que mulheres e percebi nela uma militante natural do movimento feminista, que então se iniciava no Brasil. Soube depois que estudava Filosofia ela, uma mulher libertária, muito rara ainda numa cidade grande.
Benoni começou a namorar com ela e em pouco tempo nasceu a primeira filha de três que tiveram. Clarissa é o nome dela, hoje jornalista da sucursal da FOLHA DE SÃO PAULO. Segundo o pai, Clarissa cobria para o jornal Paulista a guerra entre traficantes e policiais nos morros.
Silvia tornou-se jornalista por influência de Benoni.com o desemprego dele de O GLOBO, resolveram morar num distrito de Niterói e fundaram o semanário FOLHA OCEÂNICA, que dava para sustentar a família.
E os anos foram passando inexoravelmente. E mudavam de distrito para distrito como que buscando algo desconhecido. Benoni separou-se de Silvia, mas continuavam trabalhando juntos no jornal.Ela tomava conta da parte administrativa e ele, como bom vendedor que era, conseguia os anúncios para manter o empreendimento.
Eis que um certo dia, cada um para seu lado, a poeta Silvia Thomé é assassinada na praia a à noite, por dois indivíduos com quem estivera bebendo no calçadão. a notícia me pegou de surpresa através da televisão aqui em São Luis.
Numa de suas habituais visitas, aqui, a mim, Benoni me contou constrangido o caso e afirmou que se encontra-sse eles em qualquer lugar, os mataria. Um deles era filho de um coronel da Polícia Militar. Em homenagem a ela, líderes feministas ergueram uma estátua de Silvia Thomé na região distrital de Niterói

O artigo que clarissa, filha de silvia Thomé , publicou no Estado de São Paulo:

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A única julgada
‘Minha mãe foi morta por andar à noite, parar num quiosque e – cúmulo da provocação – ser mulher’

CLARISSA THOMÉ, O Estado de S.Paulo
06 Abril 2014 | 02h09
“Conheci o que era maldade no carnaval de 1994. Na Quarta-feira de Cinzas, um pescador resgatou o corpo de minha mãe do mar de Piratininga, na Região Oceânica de Niterói, no Grande Rio. Ela estava nua, a calcinha enrolada no pescoço. Havia sido atacada no calçadão, a 600 metros da nossa casa.
Minha mãe, a jornalista Sílvia Thomé, tinha saído para andar na praia à noite, porque tinha uma reunião de trabalho bem cedo no dia seguinte – repórter de economia, deixara a rotina do jornalismo diário para se dedicar a um sonho que ela e meu pai dividiam havia algum tempo: um jornal de bairro, que fizesse “jornalismo de verdade”, e não fosse apenas “espaço para anúncios”. Juntos, tocavam o Caderno Oceânico.
Aos 40 anos, tentava parar de fumar e as caminhadas a ajudavam a reduzir a ansiedade. Ela reclamou do horário marcado para a reunião – impediria o exercício matinal. Meu pai, ao deixá-la em casa (já estavam separados), sugeriu que caminhasse à noite. Seguiu o conselho. Depois de andar, parou com minha irmã num quiosque. Minha mãe tomou uma cerveja, Giovana, uma Coca-Cola. Giovana voltou mais cedo; queria ver um filme na tevê. Minha mãe não voltou mais.
Nunca saberemos o que de fato ocorreu. Quando ela foi encontrada, calçava uma das sandálias; a outra estava junto ao quiosque – o que deixa claro que a agressão começou ali. Mas numa era pré-luminol (substância química que realça vestígios de sangue, mesmo depois de o ambiente ser lavado), pré-DNA, só tínhamos evidências. Nenhuma prova.
O que sabemos é que nossa mãe lutou muito contra seu agressor. O laudo do Instituto Médico Legal mostrou que ela sofreu hemorragia interna por perfuração do baço, provocada por espancamento. Teve o braço direito quebrado; tinha um grande hematoma na testa. Por fim, o sufocamento – constrição do pescoço é o termo técnico.
Como o corpo foi jogado no mar e passou um dia inteiro na areia, sob o calor daquele fevereiro infernal, os peritos não concluíram se ela foi ou não vítima de violência sexual. E por muito tempo isso me confortou, de alguma forma. Pelo menos essa dor a mamãe não passou, eu dizia para mim mesma, como se fosse possível encontrar consolo em meio à tragédia.
Sabemos ainda que ela foi morta por ser mulher. Se meu pai tivesse decidido tomar uma cerveja no quiosque, não teria sido importunado. Não teria ouvido gracejos. Teria voltado para casa. Minha mãe era presa fácil: um metro e cinquenta e cinco, pouco mais de 40 quilos. Sozinha, num trecho escuro do calçadão – o refletor naquele ponto da praia estava quebrado havia semanas.
Restamos três meninas apavoradas – eu tinha 18 anos, Giovana, 16, Maíra, 13. Além de perder nossa mãe, perdemos nossa casa. O assassino ainda estava solto. Como caminhar naquele calçadão? Como mergulhar naquelas águas? Fomos morar com nossos avós.
Uma morte violenta como essa deixa marcas profundas – todos nos sentíamos culpados. Giovana por tê-la deixado sozinha. Meu pai por ter sugerido a caminhada noturna. Eu e Maíra porque estávamos viajando – há 20 anos não viajo no carnaval. Meu avô, que estava no início do processo de Alzheimer, desligou-se de vez da realidade. Morreu dois anos depois.
Em 2004, um suspeito foi absolvido no tribunal do júri. Na verdade, só minha mãe foi julgada naquele dia. A promotora chegou a perguntar: “Mas ela estava sem sutiã?”. Estava. E ninguém tinha nada a ver com isso. E a roupa que usava não justificava agressão alguma. Minha mãe também era culpada. “Isso era hora de estar na rua? O que ela estava querendo, bebendo sozinha num quiosque na praia?”, ouvimos muitas vezes.
Falar sobre esse tema é muito doloroso. Giovana e Maíra muitas vezes disseram que nossa mãe havia morrido de câncer. Encerrava o assunto. Sustava os por quês. E poupava do inevitável olhar de pena. Eu sempre escolhi a verdade. Essa é a nossa sociedade – machista, preconceituosa, em que a impunidade é regra. Temos de lidar com isso para poder transformá-la. Passei a usar uma estratégia: falo sobre o crime como quem comenta uma matéria. Como se não tivesse acontecido com a gente.
A primeira vez que menti sobre a morte de minha mãe foi para meu filho, que tinha 4 anos quando quis saber “como a vovó morreu”. Assalto, filho. Mas o bandido está preso. Não sabia como explicar para uma criança que alguém pode ser morto só por ser mulher. E que quem faz uma coisa dessas escapa ileso.
Decidi escrever sobre a minha mãe ao ler o depoimento da professora Daiara Figueroa, no Facebook. Em meio a tantas fotos com cartazes “não mereço ser estuprada”, o dela surgiu assustador, com o verbo no passado. Escrevi em solidariedade. Acabei descobrindo que também não estava sozinha – foram mais de 7 mil compartilhamentos, dezenas de mensagens de apoio, e o que mais me impressionou: relatos de violência sexual, alguns cometidos na própria família.
Depois de 20 anos, a memória embaralha, as lembranças se confundem, muita coisa se perde. Há algum tempo uma amiga de infância da minha mãe perguntou: “Lembra da gargalhada dela?”. Eu já não lembro. Mas não vou me esquecer nunca do amor intenso que ela sentia por nós. E é por causa desse amor que ficamos inteiras, unidas, apoiadas sempre num pacto quase infantil, feito no momento em que enterramos nossa mãe – juntas somos uma. CLARISSA THOMÉ É REPÓRTER DO ESTADO NO RIO”
Na minha análise do fato, ainda sob o impacto de um crime hediondo, acho que eles mataram a mulher do meu amigo, por instintos homossexuais. Não sou psicólogo, no entanto, com a minha experiência de vida e de machista de uma sociedade patriarcal, o comportamento libertário e revolucionário de Silvia agrediu a mentalidade, doentia e mórbida deles. Tenho a impressão que ela não foi violentada sexualmente. A motivação central do crime foi ela encarnar como mulher àquilo e eles não eram sexualmente, isto é, sem quaisquer preconceitos sexuais, os criminosos viam nela uma concorrente em um gênero ao qual não pertenciam naturalmente.

Capítulo 2


Benoni morava na periferia. Não me surpreendi pelo seu gosto de viver entre os pobres. Quando ele esteve em São  Luis  me visitando, ele e uma amiga minha fomos comer em um restaurante de classe média  na Lagoa da Jansen, e ele se recusou a entrar, apontando para um botequim que havia no outro lado da rua. Foi muito esforço  para convencê-lo a entrar conosco na casa de shows dos ricos.

A casa de Benoni era uma antiga  construção  de alvenaria, localizada atrás de um morro, o qual, segundo ele, fora um vulcão em tempos milenares. Meu amigo tinha construído duas suítes sobre a casa, que serviam de aluguel para turistas e acolher as filhas e uma irmã, nos fins de semana.

Acabou de chegar agora sua amiga Luzia, que trabalhava com ele, como psicóloga do Fórum, e nos levara no Fiat dela até a morada de Benoni. Era uma carioca muito compenetrada das suas origens.

–  Bom dia, disse com seu jeito de carioca

– oh minha amiga, saudou Benoni, com sua comunicação peculiar. Vamos dar uma volta hoje à noite pela cidade para Samuel conhecer.

– É  mesmo, ficar só na periferia não é  bom. Preciso conhecer Rio das Ostras, por dentro e por fora. q

E passamos a conversar sobre várias  coisas que não me lembro no momento. Luzia revelava tensão, porque deixava o filho sozinho em casa, olhando televisão.

Outra faceta de Benoni  era encher a casa de pessoas carentes. Havia dois homens que o ajudavam a superar a solidão. Eles ficaram muito contentes com a minha chegada e a de Katiane. Um deles, apelidado de Montana, que demonstrava um largo sorriso quando ficava perto de Katiane.

– Cuidado com essa menina cara,  alertei para ele, que sorriu e saiu de bicicleta para a rua

– Ele tá querendo ela Samuel, disse brincando Benoni.

Uma coisa que não gostei foi a comida que comprávamos numa casa na periferia que vendia refeição.Não comir,aliás, não passei das primeiras colheres e rejeitei a alimentação. Falei para Benoni do meu desagrado e ele concordou.

Fomos ao passeio num bar em que Benoni frequentava antes de ter um AVC, no lado direito, ficando  paralítico, com a perna se arrastando e torta. Nisso,tivemos destino parecido, porque eu já   era amputado.

– Esse mar aqui é  uma beleza, eu disse quando estávamos sentados na mesa do bar.

– Aqui, Samuel, era onde eu bebia e fumava todos os dias antes do AVC. E essa menina aqui ao lado foi minha namorada, disse apontando para uma moça magrinha, que dançava recitando poemas.

Nessa hora,Benoni pediu pra  mim recitar  uma das ,minhas poesias que ele gostava. Só que eu recitei outro sobre a cannabis  sativa: “Ela Ela Ela|Proibida Proibida Proibida|Liberta Liberta Liberta”

O fumaceiro de cigarro parecia uma nuvem entre nós,  e a cerveja corria solta, de vez em quando contemplava as águas  ruidosas da Baia de Rio Das Ostras. Ao longe via-se luzes,  eu perguntei aonde ficava a iluminação  longínqua. E me responderam que as luzes eram de cidades próximas. Fiquei interessado em conhecê-las. Mas, só fui até  Macaé, pois viera para passar apenas uma semana.

De volta pra casa,ouvi Luzia dizer para Benoni :

– Rapaz,tu achas que eu vou abrir minhas pernas de graça pra homem?

Olhei para Benoni e observei que ele dera uma cantada indireta na amiga. E o Fiat seguia de regresso para a periferia de Rio das Ostras. Já estávamos calibrados pela cerveja e Katiane, ao meu lado, demonstrava isso também. Em poucos minutos, chegamos  à casa.

Benoni era  jornalista e trabalhara  nos maiores jornais cariocas, dos quais fora demitido por participar de movimentos  grevistas. Já  pai de três filhas, casado com a jornalista Silvia Tomé, sem conseguir mais emprego em jornais, resolveu ir para Niterói tentar uma nova vida como proprietário de um jornal distrital, intitulado FOLHA OCEÂNICA. Ele é a mulher faziam o jornal semanal e a receita dos anúncios dava para sustentar a família.

Ele gostava de fazer projeto de jornal. No último dia da viagem, discutimos a possibilidade de criar uma revista de circulação nacional. Ele já tinha na cabeça todos os detalhes da ideia. Teria até correspondente internacional. Acertei com ele enviar 7 mil reais para construir a redação e uma suíte para mim morar lá. Só que a distância de estar lá e aqui em São Luís tornava o projeto impraticável. Mas cheguei a mandar o dinheiro e ele fez a construção anexa à casa.

BRio das Ostras

Benoni – Um irmão que não tive


Romance

                                             Capítulo Um

 

A comissária de bordo tentava acalmar os passageiros, com a turbulência forte do avião, como se fosse cair. Eu, sentado na poltrona da frente ,como sempre , estava com medo. Ao meu lado ,uma acompanhante  nessa viagem ,não demonstrava qualquer nervosismo.

Rapidamente, o tempo ficou bom e chegamos a Brasília, a  às 5:00 horas da manhã  no aeroporto, de onde saímos para tomar um café no restaurante. Íamos esperar uma conexão para  ao Rio de Janeiro. Dia  claro ,fomos avisados que era hora de embarcar. Duas horas depois ,aterrissamos no Tom Jobim. Cadeirante que sou, fui levado pelos funcionários da companhia aérea para o saguão, acompanhado pela Katiane.

Sem demora, contratei o motorista de uma kombi, que nos transportou até  Rio  das Ostras,  Região dos Lagos ,a duas horas do Rio de Janeiro. Atravessei  pela primeira vez a Ponte Rio-Niterói, ainda com pouco trânsito, porque, ainda era cedo. Telefonei do celular para meu amigo e ele me respondeu que a viagem duraria  duas horas.

Katiane cochilava no banco traseiro, e eu como não durmo em viagem, conversava com o motorista. Ele era gordo e jovem, dirigia com velocidade que me dava medo, pois o veículo  já era  bastante usado.Com minha curiosidade natural, contemplava

as paisagens verdes  dos povoados  por onde passávamos.

– Quando eu voltar, disse o motorista, ainda vou fazer outras corridas.Tem que ser assim, irmão, a vida está  difícil e temos que trabalhar muito.

– Eu sei que trabalhar não enriquece, mas pelo menos nos livra da fome ,falei brincando e rindo.

– Melhor do que assaltar, aqui , no Rio, tem muito ladrão. Esses morros ai estão cheios de marginais .

– Meu amigo, foram os ricos que produziram a pobreza e a miséria. Agora, estão colhendo o que plantaram.

Coçando a cabeça, o gordo correndo na pista como se fosse infinita, respondeu :

– Mas, eles estão pagando pelo que fizeram com o povo                 – Também  acho ,disse olhando pra ele

E a kombi antiga me surpreendia com a velocidade que ele impulsionava, como se não tivesse destino.Exatamente, decorridas duas horas, chegamos a Rio das Ostras e paramos na frente do Forum, onde Benoni trabalhava e já tinha me visto  em pé a à frente do prédio. Paguei a viagem mais cara comparada ao ônibus ,porém, mais rápida.

DUAS PERNAS


A diarista que trabalha aqui em casa me disse que sonhou comigo milagrosamente com as duas pernas. Eu ri e disse lhe” você parece que está adivinhando, pois antes de morrer ainda quero caminhar com as próteses dos meus membros inferiores”.

É um dos meus sonhos. Mas não chega a ser uma obsessão, porque já me acostumei com a cadeira de rodas. Dentro de casa, faço tudo nela, ando na casa toda sem precisar de ajuda. Tomo banho, vou à copa, entro nos quartos, pego vento do quintal e contemplo a rua, ao abrir o portão.

Ando na orla marítima de São Luís acompanhando é claro do motorista, sem qualquer complexo de inferioridade. Parece que fui alvo de gozação duas vezes por parte de mulheres na litorânea. Relevei, olhei para elas e percebi que o cociente de inteligência era baixo. Não há coisa mais triste para mim do que a burrice.

Fiquei amputado aos 59 anos, por diabetes mellitos e  devo ao meu amigo e médico geriatra, José Gualhardo Álvares dos Prazeres, que descobriu a doença degenerativa e letal. Eu tinha 42 anos e bebia cerveja com ele e outros noite a fora, estava no caminho da morte. O bom destino me salvou nos decorridos 31 anos e indisciplinados dada sua majestade o álcool que me dominou dos 6 anos até hoje. Meu pai ludovicense de Braga, dava me copos de cerveja em banquetes aos domingos na casa do meu padrinho de batismo, Joaquim Bastos,  em Teresina, onde fui parido pela minha mãe, Antoniusa Freire Farias, já falecida, cearense de Araripe, Região do Cariri.

Sinceramente, não sei como ainda estou vivo. E mais recentemente o cigarro que fumei mais de 50 anos presenteou -me com um câncer, o qual mandei para o inferno. Quem tem fé jamais será vencido. E gostar ou não das pessoas é um livre árbitro. É como suicidar – se.

José Gualhardo.

” Jornalista e Radialista Samuel Filho “

MINHA CANDIDATURA 


Estou decidido a me candidatar a Presidente da República pelo Partido do Caos Nacional sei que não vou eleito, mas pelo menos vou competir pau a pau com Bolsonaro, Alckmin, Henrique Meireles e outros eternos perdedores. O único que temo nas eleições 2018 é o Lula, que está preso, por tanto é carta fora do baralho.

Quis fazer uma aliança com Michel Temer, meu amigo pessoal de longas datas. Orgulhoso e convicto de que sua candidatura iria deslanchar, me subestimou e compôs com outros candidatos. Ele iria fazer alianças no segundo turno. No primeiro, Temer disputaria  sem aliados. Até Henrique Meireles ele colocou como seu vice.

Só que ele caiu com os burros n’água. E teve que desistir da candidatura em favor de Henrique Meireles, um banqueiro bem sucedido como todos eles são, que prometeu colocar o Brasil nos trilhos sem sucesso.

Estamos vivendo a pior crise econômica dos últimos anos. O feitiço virou sobre o feiticeiro. Marx e Engels diz no Manifesto Comunista que o capitalismo não pode viver sem crise. É do próprio sistema desemprego, inflação, fome e miséria.

De repente, o Brasil sai dos trilhos com o movimento do caminhoneiros, que estão pagando para trabalhar, com a subida vertiginosa dos preços do óleo diesel e da gasolina. Para não falar em outros produtos de consumo diário como : tomate,batata, remédio, gás para avião e as cidades estão parando com as frotas reduzidas de ônibus. 

A única esperança são as eleições de Outubro de 2018 quando teremos a oportunidade de escolher um presidente da república comprometido com as causas populares. Quem será esse salvador da pátria ? Não visualizo – o pela direita e o centro. Pela esquerda, só existia Lula, que o Juiz Sérgio Moro encarceirou por 9 anos e alguns dias. 

E a greve dos caminhoneiros continua e só Deus sabe até quando. Não há saída para o Brasil no horizonte próximo. Que azar.

POETA HERCULANO MORAES 


Diz o velho provérbio latino :” O poeta nasce e orador se faz “. Isso se aplica a Herculano Moraes, falecido recentemente em Teresina, minha terra natal. Ele era do interior do Piauí. Menino pobre, muito cedo se mudou para a Cidade Verde.

Foi estudante da Escola Industrial, que na década de 60 formava técnico de nível médio. Ainda vi Herculano vestido no uniforme da Escola Industrial. 

Foi poeta que tinha como guru Carlos Drummond de Andrade. Ele recitava muito os poemas do grande mineiro ainda no anos 60. Herculano gostava de recitar a poesia de Drummond intitulada ” E agora José ? ”

Depois, fui embora de Teresina para o Rio de Janeiro e o poeta ficou de onde nunca sairá a não ser, para rápidas viagens acadêmicas, o mais curioso de sua vida que ingressou naquele  soldalicio antes dos 30 anos, talvez, o mais novo membro da história da APL. Aliás foi Arimatéa Tito Filho, quem percebeu o talento do jovem bardo e o colocou em seus quadros. Arimatéa era o presidente da APL, jornalista, advogado e professor. O maior intelectual do Piauí de sua época.

Herculano Moraes legou uma obra literária diversa, múltipla e heterogênea e era um ativista cultural da Academia Piauiense de Letras. Vivia de casa pra academia e virse versa. Tinha inúmeros projetos para realizar no campo literário. 

Foi injustiçado e discriminado porque merecia ter sido presidente daquela casa. Um pobre integrar uma academia é muita ousadia, mas seu nome será lembrado para sempre na galeria dos acadêmicos. 

O Doutor Marcos Igreja me contou várias vezes que a entrada do poeta na academia provocou uma ironia de mau gosto por parte do emprendedor cultural Sineias Santos :  AQUI JAZ HERCULANO MORAES. 


” Jornalista e radialista Samuel Filho “

EU SOU LADRÃO 


Quando fui prefeito de Flores muitos me elogiavam por trabalhar mas roubar. E ainda é assim, apesar da Lava Jato. Na verdade a corrupção existe desde que há política no mundo. E não será diferente daqui pra frente. Política é a arte dos larápios. 

Dizem, não sou historiador, que os portugueses colonizaram o Brasil com ladrões e assassinos. Daí a prodigalidade da corrupção. Pero Vaz de Caminha disse em sua carta ao rei Dom Manoel, O Venturoso que no Brasil ” Em se plantando tudo dá”, inclusive o roubo.

Prefeitinho como fui em plena juventude, recebi também muita esculhambação dos opositores que queriam meter a mão nos cofres públicos. Lutaram demais para conseguir e não demorou muito e me derrubaram do poder e continuaram a roubar como eu.

Assim a roda da história vai girando e ninguém é inocente em política. Se tiver um exemplo de prefeito honesto, me diga urgente quem é, porque não conheço nenhum à partir de mim. Não sei quem foi quem disse, a política é a arte de enganar os povos.

O Brasil não tem jeito. A Lava Jato está fazendo uma limpezinha. Depois a sujeira volta a emporcalhar uma das atividades mais nobres que deveria ser. Infelizmente tudo começa e termina na maldita política dos partidos corrompidos.