Blog de Samuel Filho

A METÁFORA DE DEUS (CINCO)

Posted on: 5 de agosto de 2014


 

Chovia forte. Trovões estouravam no céu. Foram desligados os dois ventiladores do teto e fechadas as janelas. Era hora de dormir. Os pacientes dormiam após às 23 horas. Os gritos de um doente de outro apartamento perturbaram o hospital.

“Ô  meu pai Eterro… ô meu pai Eterro…”

Aborrecido, Juarez mexeu-se na cama e desabafou:

“Ninguém pode dormir com esses gritos”.

“Quem é?” Antonio de Pádua quis saber.

“ É o Cristóvão. Ele se queimou com álcool do pescoço aos pés. No dia em que não faz o curativo e termina o efeito da anestesia, ele começa a sentir dores”, conta Juarez.

A dor de Cristóvão atingia Antonio de Pádua. Sensibilizado, rezou para Deus amenizar  o sofrimento de Cristóvão. Orou para a Providência Divina poupar a si próprio de mais dores e agradeceu à bondade de Deus.

Cochilou e se viu numa estrada escura, amedrontado por uma rês furiosa, que soltava berros ameaçadores. Paralisado de medo, Antonio de Pádua ouviu o aboio de um vaqueiro,  que domou a rês e ele pôde seguir em frente.

No outro dia ,  impressionado com essa visão, interpretou-a como sendo uma manifestação de Deus. Para ele,  a rês era a morte;o  vaqueiro era Deus; e a estrada uma transição entre a vida e a morte. O vaqueiro determinou que Antonio de Pádua tivesse permissão para continuar vivendo.

A limpeza do hospital era feita com zelo. Os rapazes, fardados de azul e calçados com botas, jogavam água sanitária e enxugavam o chão. O banheiro tinha um tratamento mais rigoroso. Os pacientes sempre se queixavam do mau cheiro do banheiro. Bastava que alguém abrisse a porta, para que exalasse fedor. Melhorava depois da limpeza. Juarez, que era uma espécie de porta voz dos doentes, pedia aos faxineiros que caprichassem na tarefa. No final do trabalho, Juarez distribuía alguns cigarros para eles.

Em companhia de Batalha, o doutor Valter chegou ao leito de Antonio de Pádua. Tirou o esparadrapo que cobria o corte da cirurgia. Olhou e falou com sua voz mansa:

“Está bom. Dentro de poucos dias, vamos fechar isso”.

“Tomara. Minha paciência atingiu o limite”, disse Antonio de Pádua.

“Não vá perder  a paciência agora que você está quase restabelecido”, observou Batalha.

“O diabetes está controlado”, assegurou o doutor Valter. “Vamos encerrar a aplicação de insulina e soro. Você tem que caminhar hoje”.

O doutor Valter saiu. Alegre, Antonio de Pádua riu para Juarez. Estava aliviado dos soros e antibióticos que tomava todos os dias. Seus braços estavam livres para se movimentar.

“Vamos caminhar gordinho”, convocou Juarez.

“Pode ser”, concordou Antonio de Pádua.

“Levanta macho”, disse , segurando-o pelo braço esquerdo.

Antonio de Pádua sentou-se na cama e ficou tonto.

“Desce e bota os pés no chão. Calça a japonesa. Não fica com medo, eu te seguro”.

Trêmulo, Antonio de Pádua pisou no chão. Sentiu um rápido mal estar nos pés, como se estivessem cravados de espinhos por dentro. Encostado na cama, deu alguns passos em frente, apoiando-se em Juarez. Caminhou um pouco e pediu para voltar à cama.

Meiga como sempre, dona Francisca alegrou-se com a notícia de que seu marido tinha caminhado.

“Mais tarde, você tenta andar outra vez até ir melhorando”, falou dona Francisca. “Você quer comer maçã?”

 

“Não. Só posso comer o que é prescrito pelo médico. Eu quero que você compre jornais para mim todos os dias”, disse Antonio de Pádua , deitado,  olhando para um paciente recém operado.

No auge da crise, Antonio de Pádua pensava que não iria mais andar com as próprias pernas, tal a fraqueza em que se encontrava. Superada a dificuldade da primeira vez, passou a caminhar normalmente.

Veio a preocupação com a sua magreza. Tinha perdido quase 20 quilos. Os braços, as pernas e o tórax estavam finos. As costelas apareciam. Nem parecia aquele homem gordo, bem roliço, rosto cheio, barriga proeminente e pernas grossas. O contraste era surpreendente. Antonio de Pádua parecia  um cadáver em comparação com o outro sadio, antes da doença. 

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