Blog de Samuel Filho

A METÁFORA DE DEUS (SEIS)

Posted on: 6 de agosto de 2014


 Domingo. Lá fora, via-se a claridade do sol. Os sinos de uma igreja repicavam, chamando os fiéis para a missa. Antonio de Pádua teve vontade de assistir à missa como nos tempos de menino. Aliás, desde a infância, nunca mais entrara numa igreja. Tinha se tornado um agnóstico na juventude, por influências de leitura de alguns pensadores materialistas. Sentia prazer de negar a importância da religião e do sobrenatural. Agora, saindo de um sofrimento, sentiu até o cheiro de incenso vindo da igreja. Era só imaginação, porque a igreja ficava longe dali.

Antonio de Pádua orou mentalmente, sem balbuciar as palavras. A oração era a mesma que criará no paroxismo do sofrimento ao defrontar-se com a morte. Ai,  Antonio de Pádua percebeu com toda a clareza que não era ateu. Todos os valores cristãos incutidos na infância vieram à tona. E Deus reapareceu em sua consciência.

                                                           

 

Ia  tirar a barba, pela primeira vez, depois da operação. Criou coragem para se encarar no espelho do banheiro. Mirou-se e se achou magro, quase defunto. Os olhos castanhos estavam refletindo dor, os cabelos crespos nunca mais tinham sido penteados. Os lábios finos estavam pálidos. Frente ao espelho, Antonio de Pádua lembrou-se de sua imagem,  quando fora  ao banheiro , após a cirurgia com a sonda no nariz. Naquele instante, desconheceu-se a si próprio.

Para matar o tempo, Antonio de Pádua lia até as colunas sociais dos jornais e os anúncios , o que geralmente não fazia. Até detestava isso. Estava deitado, absorvido na leitura, quando Juarez puxou o dedão do seu pé.

“Não faça isso”, pediu aborrecido Antonio de Pádua.

“Morreu uma velha…”, disse Juarez sorrindo.

“De quê?”

“Câncer. Não havia jeito. Já levaram o corpo dela para o necrotério”.

Antonio de Pádua interrompeu a leitura do jornal, abalado com a notícia de Juarez. Rezou para si  mesmo sem que ninguém notasse.

No último dia de visita aos doentes do hospital, um pastor protestante esteve no leito de Antonio de Pádua. Distribuiu para ele e para os outros um jornal de sua seita religiosa. O homem chamou a todos a orar. Antonio de Pádua ficou mudo e não rezou. Depois, sozinho, justificou a Deus porque não  orara com o pastor. Antonio de Pádua disse a Deus que o importante era a fé e não as igrejas. Assim estava livre de um problema de consciência. Mas admitiu consigo mesmo que não rezou em público por vergonha. 

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