Blog de Samuel Filho

A AGONIA DO TRAIDOR DE TIRADENTES

Posted on: 22 de setembro de 2014


PUBLICAMOS, A PARTIR DE HOJE, POR CAPÍTULO, O ROMANCE  ‘A AGONIA DO TRAIDOR DE TIRADENTES’ , DE SAMUEL ALVES FARIAS FILHO:

joaquim_09( Joaquim Silvério dos Reis )

“Melhor negócio de Judas
fazes tu, Joaquim Silvério:
que ele traiu Jesus Cristo,
tu trais um simples Alferes.
Recebeu trinta dinheiros…
-e tu muitas coisas pede:
pensão para toda a vida,
perdão para quanto deves,
comenda para o pescoço,
honras, glórias, privilégios.
E andas tão bem na cobrança
que quase tudo recebes”.

(“Romanceiro da Inconfidência”-Cecília Meireles)

Capitulo I

O apito do vapor avisava que dentro de pouco tempo ia zarpar com destino ao Rio. Os catraieiros recebiam as bagagens. Carruagens velozes chegavam ao porto trazendo passageiros retardatários. Algumas pessoas choravam. Escravos acompanhavam seus donos na viagem.

O coronel Joaquim Silvério dos Reis Montenegro observava o movimento do pé da rampa que dava para o Largo do Palácio. Ele teve vontade de viver no Rio outra vez. O cotidiano da ilha de São Luís era para ele acanhado e monótono.

Sentia-se como desterrado, longe dos acontecimentos que agitavam a Corte Real. Gostava de transitar em torno do poder. Desde moço acostumara-se a conviver com governadores, vice-reis e outras autoridades. Mas sua presença incômoda levara a Coroa a obrigá-lo a morar no Maranhão, pois, tornara-se figura indesejável nos meios palacianos de tanto pedir favores e mordomias e cometer falcatruas.

Chegara a escrever uma carta a Dom João VI, dizendo que fora injustiçado ao ser removido para o Maranhão. Logo ele que prestara um alto serviço à Rainha Dona Maria I, denunciando a Inconfidência Mineira. Nessa missiva, solicitou a Dom João VI que estudasse a possibilidade de determinar o seu retorno ao Rio.

O coronel ajeitou na cabeça o chapéu de feltro de cor marrom. Foi surpreendido com uma mão no seu ombro direito. Era o comandante Venâncio, do Quartel de Campo de Ourique. Ambos sempre conversavam horas a fio.

-O coronel se espantou?

-Não, comandante, disfarçou o coronel apontando para o vapor que apitou três vezes e partiu, singrando as águas do mar.

-O mar está bravio, comentou o comandante.

-E muito, disse o coronel, olhando-o fixamente.

-Você parece que anda desanimado ou é impressão minha? – O comandante indagou com gesto de preocupação, franzindo as sobrancelhas.

-É raiva de tanta injustiça contra mim.

-Cuidado, coronel, raiva mata. Tenho uma boa nova para você.

-O que é? – Quis saber o coronel, curioso.

-O governado Curuba é metido a besta. Quer ser sério, no entanto, faz cada uma que se Dom João VI soubesse mandaria ele para as profundas do inferno. Os magistrados não gostam dele, porque é falso. O povo detesta tanto ele que o chama de Curuba, devido àquelas sarnas nojentas que carrega no corpo.

O comandante ouviu em silêncio, gesticulando um não com a cabeça em sinal de desaprovação.

-Hoje, você está muito revoltado coronel. O governador é um homem bom e decente. O seu governo é um dos mais tranquilos dos últimos tempos. Essas brigas dos magistrados com ele é maldade desses privilégios absurdos.

-Não fez nada que preste até agora. Passa o tempo coçando as sarnas.

O comandante sorriu, dizendo que a doença de pele do governador estava desaparecendo com a vinda de um remédio da Inglaterra. E explicou que quanto a essa briga entre o governador e os magistrados estava do lado do governador. O comandante salientou que concordava com o mandatário quando dizia que a maldade e a intriga é obra dos magistrados e o povo é um bom vassalo.

O coronel mudou o tom da conversa, suavizando o seu temperamento irascível. Tinha a rara capacidade de passar da irritação à brandura, sobretudo quando pretendia se beneficiar de alguma coisa. Nesses momentos, ficava até gentil, porém, virava uma fera ao ter um interesse contrariado. Com humildade, ele pediu ao comandante.

-Veja se dar para o governador me arranjar umas sesmarias. Ele tem que saber agradar também a gente. Só a panelinha do palácio não pode.

-Vou falar com o governador na primeira oportunidade. – O comandante tinha um vozeirão próprio daqueles que dirigem tropas.

-Eu lhe agradeço muito se fizer isso para mim. Estou precisando de mais umas terrinhas. Só as que tenho no interior não dão.

-Está certo, coronel.

Com a mão no peito, o coronel justificou o pedido:

-Se não aproveitarmos as oportunidades da vida, se morre na miséria. Tem aquela história que se diz que a sorte é um cavalo que passa a galope em frente a nossa casa. Se você não saltar na sela do animal nunca mais tem outra chance. Aprendi essa lição muito cedo.

-Também acho.

O vapor desaparecia no horizonte. Mar e céu confundiam-se. As águas verdes do mar brilhavam como espelhos.

-Não tive sorte até agora. Estou velho e sem fortuna. Perdi o que tinha em Vila Rica. Tive fazendas e mais de 100 escravos. Hoje estou vivendo de soldos. O governador Visconde de Barbacena mandou sequestrar os meus bens por causa da dívida. Esse foi o prêmio que ganhei ao salvar a Coroa de uma conspiração.

-Coronel, você se queixa muito da vida. Pelo que sei a Rainha Dona Maria I lhe deu uma pensão, o Hábito de Cristo e o título de fidalgo em reconhecimento à sua atuação na Inconfidência Mineira. O comandante falava olhando para os cabelos grisalhos do coronel.

O rosto do coronel ficou vermelho diante da declaração do comandante. Irritado, com a mão direita levantada, disparou.

-Só isso não basta. Por que não devolveram os meus bens? São uns ingratos. Além disso, quase ia perdendo a vida. Depois que saí da prisão da Ilha das Cobras sofri um tiro de bacamarte que ainda me atingiu de raspão. Depois, como se fosse pouco, tentaram atar fogo na casa que estava morando.

-Quem que você acha que era? Indagou o comandante.

-Ora, era alguém ligado aos inconfidentes.

-Era mesmo. Era uma pessoa do movimento, concordou o comandante batendo a bota no chão. Como você foi tratado na prisão?

-Bem, de acordo com a minha patente de coronel. Fui preso para ser acareado como testemunha de acusação. Andava livremente na Ilha das Cobras. Os inconfidentes é que sofreram nas masmorras.

O comandante mostrava-se interessado no assunto.

-Depois, o coronel foi fazer o quê?

-Eu e meu sogro, que também era coronel, recebemos a missão de zelar pelos bens de um nobre em Campos, Estado do Rio de Janeiro.

-Coronel, pelo que soube lá você e seu sogro cometeram muitas arbitrariedades. Pessoas prejudicadas denunciaram à Corte graves atos que vocês praticaram;

O coronel irritou-se

-É mentira. Eu e meu sogro fomos vítimas de calúnias. Somente não permitimos que alguns escroques se apoderassem do patrimônio alheio.

-Mas, a Corte acreditou na versão dessas pessoas que se consideravam prejudicadas.

-Acreditou porque foi ludibriada com mentiras, disse o coronel com a voz alterada.

No porto, navios eram carregados de algodão que era exportado em grande quantidade para Portugal e Inglaterra. O comandante observava o vai e vem dos escravos que levavam nas costas o peso do algodão.

Enraivecido, o coronel retomou a conversa:

-Eram todos safados. Queriam ficar mamando nas tetas dos outros e não permitimos isso.

-De Campos você foi para o Rio de Janeiro?

-Eu e meu sogro demos as nossas explicações à Corte sobre os fatos que aconteceram em Campos. Em seguida, eu e minha mulher fomos a Portugal, ficando lá como hóspedes do Reino durante um bom tempo. Visitei a Freguesia da Sé na cidade de Leira, onde nasci. Se há uma coisa de que me arrependo é ter regressado para o Brasil. A minha mulher ficou insistindo em voltar por causa de sua família. Por isso, tive que regressar.

Apertando a mão o coronel, o comandante disso:

-Coronel, eu vou pegar a minha carruagem. Tenho que ir ao quartel. Se quiser lhe deixo em casa.

-Obrigado. Preciso caminhar para estirar as pernas. Não se esqueça das sesmarias, lembrou o coronel.

A carruagem andou célere. O vento soprava entre as folhagens das palmeiras. O coronel respirou fundo, caminhando cabisbaixo pelas ladeiras.

“Tenho que conseguir as sesmarias”, meditava o coronel. “O comandante Venâncio é a pessoa mais indicada para isso através do seu prestígio junto ao Curuba”.

Recentemente, o coronel estivera no interior e ficara entusiasmado com a plantação de algodão em suas terras. Estava lhe faltando mais dinheiro e terra para dedicar à lavoura e à criação de gado.

Entrou em casa. Dona Bernadina estava sentada numa cadeira de embalo na varanda. O filho Manuelzinho divertia-se perto dela.

-Agora, Montenegro? – Os olhos negros dela transmitiam pureza.

-Já lhe disse que não deve se preocupar comigo. Se demorei é porque estava fazendo alguma coisa.

Dona Bernadina Perguntou se o coronel queria almoçar. Ele respondeu que não estava com fome. Mais tarde, talvez, comesse.

Dona Bernadina foi à copa. O coronel olhava vagamente para as paredes de pedra e caldo sobrado em que morava.

-Ainda tem vinho, Bernadina? – O coronel tinha o habito de beber uma caneca de vinho por volta de meio-dia antes de almoçar.

Ela deu-lhe o vinho. O coronel sentou-se à mesa, olhou para a mulher e bebeu com vontade o primeiro gole.

-Bernadina, precisamos diminuir as despesas. Os meus soldos não aumentaram mais.

-Montenegro, tenho feito o possível para gastar menos. As despesas de uma casa são grandes.

-Eu tive uma notícia alvissareira hoje. O comandante Venâncio me falou que o governador Curuba vai distribuir sesmarias. Pedi ao comandante que me ajuda, conseguindo umas para mim. Amanhã vou ao quartel para lembra a ele sobre o meu pedido.

Entre uma frase e outra o coronel bebia o vinho. A bebida relaxava-o, deixando-o mais afetuoso. Manuelzinho olhava o pai sem entender direito o diálogo entre o coronel e a mãe. O coronel chamou-o para junto de si. Manuelzinho aproximou-se devagarinho, com preguiça.

-Vem cá meu filho – O coronel alisou os cabelos do menino.

-Montenegro, o Manuelzinho está gripado. Não fica muito perto dele.

-Gripe não mata. Manuelzinho, meu filho, eu quero que você seja um comerciante. Comércio é que dá dinheiro.

Dona Bernadina arrumava peças de ornamentação da cristaleira. O coronel tomou mais um gole de vinho, pensando nos negócios que poderia fazer caso ganhasse as sesmarias. Dona Bernadina virou-se para o coronel.

-Montenegro, cada dia que passa o Manuelzinho se parece mais contigo. Esse nariz grande não nega. Os cabelos nem se fala. Resta ver se vai ficar alto como tu.

-Os olhos dele é a cópia fiel dos teus, observou o coronel bebendo mais.

-O que o meu filho se parece comigo é o gênio tranquilo e pacato. É um menino educado de nascença, disse dona Bernadina com orgulho.

-Não gosto do jeito pomba mole dele. Prefiro que seja enérgico como eu. Nada de ser parecer com mulher. Homem é homem e mulher é mulher.

Dona Bernadina voltou a perguntar ao coronel se ele não queria almoçar o ensopado de bacalhau que estava gostoso.

-Mais tarde. Ainda não estou com fome.

-Montenegro, você está suando tanto que a camisa esta toda molhada. Que é isso?

-Não sei. De uns tempos para cá venho sentindo um mal estar como se fosse desmaiar.

-Você está um pouco pálido. Dona Bernadina enxugou o suor que gotejava da testa do marido.

A escrava Rosa apareceu dos fundos da casa. Os peitos duros da negra pareciam querer sair de dentro da blusa de chita. Dona Bernadina perguntou a Rosa se já tinha almoçado com o negro Domingos.

-Acabamos agorinha. Tava bom, dona Bernadina.

-O negro Domingos já fez a limpeza do quintal? Interrogou o coronel com rispidez.

-Fez. – Rosa respondeu timidamente, assemelhando-se a um animal amedrontado.

-Diga a ele que não quero serviço porco. Depois, vou olhar se a limpeza está parecendo com a cara dele. Esse negro Domingos só levando umas chicotadas. Quando comprei parecia esperto. Agora, está preguiçoso.

-Montenegro, eu vi o Domingos limpando o quintal. O serviço está bem feito.

-Bernadina, tu tens o mau costume de defender escravo como se fosse gente igual a nós. Escravo tem que ser tratado com taca no lombo.

O coronel falava irritado, a ponto de ficar com a veia do pescoço inchada e vermelha. Dona Bernadina notou a vermelhidão do marido.

-Montenegro, evita te irritar à toa. Cuidado com a saúde. Deixe as tarefas domésticas comigo.

-Qualquer hora dessa levo ele para o interior para trabalhar na roça. Estou precisando de mais negros lá. O cabra que toma conta de minha lavoura e de meu gado é mau para escravo. Escravo com ele é no chicote.

Domingos surgiu trazendo uma bacia cheia de juçaras. O caroços arroxeados da fruta chamam a atenção de dona Bernadina, que retirou um para admirar.

-Que coisa gostosa. Eu adoro essa fruta, vibrou dona Bernadina. Montenegro, você devia tomar uma juçara. Dizem que contém muito ferro e é boa para anemia.

-Não gosto. Vocês que apreciam que bebam.

-Juçara é bom como quê, exclamou Domingos, mostrando os dentes brancos e as gengivas roxas.

-Negro, não estou falando contigo. Conhece o teu lugar. Vai cuidar do meu cavalo que é melhor. Já deste ração para o Tróia? E o quintal foi bem limpo ou deixaste uma porcaria? Cuidado negro. Ajeita-te senão o chicote vai tinir em tuas costas. Sai daqui e vai logo dar um banho no Tróia.

Rosa e Domingos saíram silenciosos como cães enxotados. Por trás, salientavam-se os músculos dos braços e do tórax de Domingos. Estava vestido em um calção branco que cobria os joelhos.

O coronel ainda deu um berro para eles ouvirem:

-Negro aqui é no relho.

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