Blog de Samuel Filho

A AGONIA DO TRAIDOR DE TIRADENTES ( II )

Posted on: 24 de setembro de 2014


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 Joaquim Silvério dos Reis

Capitulo II

O coronel estava na sala de espera do gabinete em que o comandante Venâncio despachava. Havia um entra e sai de militares. Os subordinados batiam continência para o coronel. Outros o cumprimentavam solenemente. Um oficial robusto quis saber do coronel se sua licença estava terminando. O coronel explicou que ia renová-la por motivos de saúde. Talvez, tão cedo não voltasse à ativa. O ajudante de ordens do comandante interrompeu-os, convidando o coronel para entrar.

-Seja bem vindo, coronel, saudou o comandante com seu porte marcial e o uniforme engalanado. Pode sentar-se.

-Comandante, o calor está sufocante. – O coronel puxou a cadeira, sentando-se

O gabinete do comandante era amplo, decorado com um grande crucifixo de Cristo e quadros de reis portugueses, tendo como destaque um Dom João VI. O comandante tirou do bolso o seu relógio de algibeira para conferir a hora.

-Até agora correu um vento. –A voz metálica do comandante ressoava no recinto.

-Melhorou um pouco. O calor esta insuportável. – O coronel suava.

-Ontem em casa estava me lembrando de uns documentos que li sobre a Inconfidência Mineira. O coronel se incomoda conversar sobre isso?

-Para mim nem fede nem cheira, disfarçou o coronel indiferença.

-Águas passadas não movem moinho, não é coronel? Posso lhe fazer uma pergunta?

-Pode. – O coronel olhou para o chão.

-Você esteve ao lado dos inconfidentes?

-De início, aderi ao movimento. Quando percebi que não tinha pé nem cabeça, saltei fora.

O coronel baixou a cabeça para ocultar alguma coisa dentro de si. O comandante ergueu-se com o peito estufado e as mãos nos bolsos.

-Não fique melindrado comigo, mas dizem que o coronel denunciou os inconfidentes por interesses pessoais.

-Isso é injúria. – O coronel exaltou-se. – Denunciou os inconfidentes por interesses pessoais.

-Isso é injúria. – O coronel exaltou-se. – Denunciei os inconfidentes por lealdade à Coroa. Eu é quem saí levando a pior em toda essa história. – O coronel fingia com ar de vítima. – Não sou traidor como querem fazer crer. Os conjurados é que pretendiam trair a Coroa. Se não fosse eu estaríamos hoje escravizados pelo regime que iam implantar aqui.

-Não resta dúvida que você deu uma importância contribuição, ponderou o comandantes.

Colérico, o coronel falava, arregalando os olhos:

-Tenho sofrido mais que certos inconfidentes como Tomaz Antonio Gonzaga e Alvarenga Peixoto. Só foi a forca a Tiradentes, porque deu uma de herói. O Cláudio Manoel da Costa se matou por covardia.

-Nos Autos de Devassa da Inconfidência Mineira consta que todos eles procuraram salvar a pele, com exceção de Tiradentes.

O comandante voltou a tomar assento. O coronel levantou-se nervoso.

-Não fui eu apenas quem delatei. Também denunciaram os tenentes-coronéis Basílio Malheiro do Lago e Inácop Correia Pamplona. No entanto, a triste fama só pegou em mim.

Bem informado, o comandante tinha conhecimento de que o coronel entrara na Inconfidência Mineira na esperança de ter sua dívida perdoada junto a Fazenda Real, caso a revolução triunfasse. Porém, ao ser pressionado pelos credores, teve a ideia de delatar a sedição para o governador de Minas, Visconde de Barbacena.

A curiosidade do comandante crescia, à medida que o coronel contava qual tinha sido o seu papel na Inconfidência Mineira.

-Em Vila Rica havia grande insatisfação por parte do povo?

O coronel franziu a testa

-Era grande o descontentamento devido a cobrança da quinta parta do ouro extraído – a chamada Derrama. Nas casas de fundição o ouro era transformado em barras e em seguida carimbado como ouro quintado. A corte havia estabelecido uma cota mínima de 1.500 quilos, mesmo com a produção diminuindo em virtude da exaustão das minas. Ao saber da Inconfidência, o Visconde de Barbacena decidiu, por habilidade política, adiar a Derrama para enfraquecer a conspiração.

O comandante estimulava a conversa, perguntando ao coronel se esse havia seguido Tiradentes ao Rio Janeiro. O coronel disse que o Visconde de Barbacena exigira dele duas coisas: que fizesse do próprio punho a denúncia, para que pudesse processar os conjurados; segundo que seguisse Tiradentes no Rio e mantivesse contatos com o vice-rei com Luis de Vasconcelos, o informado sobre os passos de Tiradentes.

A pergunta do comandante se Tiradentes desconfiara, o coronel respondeu que não. Ao contrário, Tiradentes exultou de alegria ao se deparar com o coronel nas ruas do Rio.

-Tiradentes foi logo me dizendo que já tinha conseguido adesões de militares, e que muito em breve a revolução estaria vitoriosa. Tiradentes só desconfiou de mim no começo, quando o sargento-mor Luiz Vaz de Toledo me levou a uma reunião na casa do coronel Alvarenga Peixoto, apresentando-me como o mais novo simpatizante da causa. eu notei que ele não gostou da minha presença.

O ajudante de ordem entrou na sala para dizer ao comandante que uma autoridade do governo pretendia falar com ele. O comandante mandou que o ajudante de ordens solicitasse que a autoridade voltasse à tarde, se possível. O ajudante de ordens balançou a cabeça em sinal de acatamento e fechou a porta.

Confiando o espesso bigode, o comandante indagou:

-E o vice-rei Dom Luis de Vasconcelos como viu a conspiração?

-Ora, mandou militares vigiarem Tiradentes dia e noite. O vice-rei era severo. Não perdoava aos seus opositores.

O coronel sentiu-se em de certo instante como um réu interrogado por um juiz. Teve ímpetos de cortar o diálogo bruscamente. Conteve-se para evitar constrangimento.

-Há uma versão de que o vice-rei ameaçou-o quando Tiradentes desapareceu?

-Foi. Fiquei chateado. Tive pesadelos durante algumas noites, porque não localizava Tiradentes. No dia anterior ao desaparecimento dele, estivemos numa praça e ele chegou a me dizer que estava sendo seguido. No entanto, não me disse que ia se esconder. Só escapei da ameaça do vice-rei porque me encontrei com o padre Ignácio Rangel e ele sabia do endereço de Tiradentes. Mas o padre não quis me dizer o local em que Tiradentes havia se escondido. Aí fui ao vice-rei e contei-lhe do meu encontro com o padre. Raivoso, o vice-rei ordenou que militares buscassem o padre. Este, na presença do vice-rei, insistiu em não querer dar o paradeiro de Tiradentes. Esmurrando a mesa, dom Luis de Vasconcelos ameaçou colocá-lo na enxovia. Aí o padre se amedrontou e deu o endereço de Tiradentes.

O comandante disse que soubera que Tiradentes tentara resistir à prisão, no entanto, os militares terminaram rendendo-o com armas na mão. Enquanto isso, em Vila Rica os outros inconfidentes eram presos e levados para o presídio da Ilha das Cobras.

O coronel aparentava cansaço. Contudo, o comandante puxava mais coisas sobre a Inconfidência Mineira, procurando saber por que o movimento fracassara.

-Comandante, o senhor achaque revolução de poetas, padres e gente abastada vai para a frente ? Em Vila Rica, no começo, o tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, que comandava a tropa mais importante, deu apoio ao movimento. Mas, quando ele viu que a coisa começava  a ficar seria, recuou e passou a adiar a deflagração da revolução. E depois de preso, contou tudo. Dessa forma aconteceu com todos os inconfidentes.

-Quer dizer que o único firme foi Tiradentes? –O comandante apertou o seu próprio punho para enfatizar a pergunta.

-Acho que foi um ingênuo, porque assumiu tudo para si, enquanto os outros procuraram se inocentar. Tiradentes deveria ter se calado e ter como os outros dado pouca importância ao movimento.

-Concordo, disse o comandante batendo na cadeira com suas botas lustrosas. –Tiradentes, coronel, era um agitador perigoso. Vivia pregando a revolução nas estalagens por onde passava. Um elemento desse tipo tem que ser eliminado do convívio social, pois é capaz de desagregar a sociedade. Além disso, a Coroa tinha que dar o exemplo, enforcando-o e esquartejando-o, para que outros pensassem duas vezes antes de ter essa ousadia.

O coronel tossiu e levantou-se para cuspir na escarradeira. O comandante especulava sobre a personalidade de Tiradentes. O coronel retornou, caminhando meio encurvado.

-Comandante, o senhor acha que não vão aparecer outros Tiradentes? – O coronel esperou a resposta com a mão no queixo.

-Aqui, no Maranhão, se surgir um Tiradentes, vai se dar mal. Tivemos o nosso Tiradentes e foi enforcado também.

-Quem era? – O coronel abriu os olhos com interesse.

-Foi Bequimão. Lutou contra o estanco. Se deu mal. Ele chegou a derrubar o governador da época e assumiu o poder político em São Luís. Só que El-Rei mandou tropas de Portugal para sufocar os rebeldes. Atualmente, não vejo sinais de revoltas aqui. São Luís é um sociedade com maioria de portugueses. A dominação de Portugal é forte aqui. Mesmo que venha a surgir qualquer movimento de independência, estamos preparados para combatê-lo sem piedade. Para revolucionários temos forca e cadeira.

-Eu não pretendo mais entrar nessas coisas. Quero tranqüilidade, suspirou o coronel.

-Está certo. Você já deu sua contribuição. Deixe isso para os mais novos. Voltando à Inconfidência: se eu fosse a Rainha Dona Maria I, teria enforcado mais uns dois. Não teria dado vida fácil para o desembargador Tomaz Antonio Gonzaga, que está numa boa em Moçambique e nem ao coronel Alvarenga Peixoto, que foi ainda muito benevolente.

O coronel lembrou ao comandante que a mulher de Alvarenga Peixoto, Barbara Heliodora ficara louca em conseqüência do desterro do marido. Ela era poeta e contam que a loucura dela foi ficar recitando versos pelas ruas.

-Já me falaram dela. Era uma mulher bonita, e que incentivou muito o marido a não trair os companheiros. – O comandante esfregou os olhos.

-Eu acho que ela enlouqueceu também porque confiscaram todos os bens de Alvarenga Peixoto. Ele era um homem muito rico. Dono de fazendas minas de ouro e de escravos.

O comandante disse que pobre mesmo era Tiradentes, no entanto, era o único corajoso, enfrentara o patíbulo sem medo. Para ele, os outros inconfidentes eram covardes. O comandante encerrou a conversa dizendo que se tratava de um assunto importante a Inconfidência Mineira, principalmente para ele que era o responsável pela segurança da sociedade maranhense.

O coronel cumprimentou o comandante e saiu. No portão do quartel deparou-se com outros militares que fizeram questão de abordá-lo. Entre eles, o coronel era tido como um militar famoso pela sua participação na Conjuração Mineira.

A caminho de casa, o coronel se lembrou que esquecera de falar para o comandante tratar de seu pedido de sesmarias junto ao governador. A prosa entre eles tinha sido tão absorvente que se descuidara do mais importante.

Um negro gritava o seu pregão, chamando a atenção dos transeuntes para as vísceras que estava vendendo. Nas ruas, via-se mais gente negra. Uns levavam carroças d’água. Outros carregavam cestas vindas dos armazéns de secos e molhados. Outro português era visto com guarda-chuva, para proteger-se do sol escaldante.

O coronel parou cansado antes de chegar em casa. Até há pouco tempo andava com mais disposição. Era capaz de caminhar o dobro do percurso que acabara de fazer sem sentir-se mal. Caíram-lhe pelos pescoços gotas de suor. Os cabelos grisalhos estavam molhados.

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