Blog de Samuel Filho

A AGONIA DO TRAIDOR DE TIRADENTES (III)

Posted on: 1 de outubro de 2014


joaquim_09

Capitulo III

-Bernardina, de uns dias para cá, venho sentindo uma fraqueza no corpo.

-Montenegro, você tem que se descontrair.

-Estou necessitando de um tratamento para ver o que está acontecendo comigo. Deve ser a velhice. A velhice é mesmo a decadência. Tudo que é ruim aparece com ela.

O coronel falava lembrando dos seus tempos de mocidade em Vila Rica, quando começou a namorar dona Bernadina. Ele chamou a atenção da mulher para a diferença existente entre a juventude e a velhice, revelando certo desgosto no seu modo de falar.

-Montenegro, a gente tem que se conformar com essas coisas da vida. A bíblia diz que há tempos para tudo. Somente com a fé em Deus podemos compreender a nossa existência e ter uma velhice cheia de sabedoria. Sem religião não há salvação.

Dona Bernadina contemplou o teto do sobrado com seus olhos piedosos.

-Vou ter que me consultar com o médico do quartel. Talvez, ele descubra a causa dessa fraqueza. – O coronel estava preocupado.

-Não sei não. Mas acho que tudo isso é excesso de nervosismo.

-Até que não estou muito agitado.

-Agora que você está mais calmo, Montenegro. Você foi temperamental a vida inteira. Providencia ir logo ao médico. Se for alguma doença a gente fica sabendo. Vou fazer um chá para ti. Serve como calmante.

Dona Bernadina foi à cozinha. Mandou Rosa preparar o chá de erva. Vestida numa longa saia, batendo nas pernas, e blusa de mangas compridas, dona Bernadina retornou para a sala, atapetada e decorada com móveis de jacarandá. Ali, o coronel recepcionava os visitantes.

-Já mandei a Rosa fazer o chá. Você vai melhorar imediatamente. Quem me ensinou esse chá foi minha mãe, que dava sempre para o papai se acalmar quando ficava nervoso.

-Meu sogro se parecia muito comigo, pelo menos no temperamento. Em campos, quando passamos lá uma temporada, enfrentamos um pessoal que queria nos botar para trás. O diabo é que o vice-rei não nos apoiou.

-Naquele tempo, Montenegro, eu fiquei com medo deles matarem tu e papai. Eu não dormia de noite pensando que acontecesse o pior. Fiz muitas orações para Deus. Ele acolheu as minhas preces.

-Se eu e teu pai estivéssemos amolecido aquela corja tinha montado em cima de nós, Bernadina.

Dona Bernadina disse que bons tempos foram aqueles que ela e o coronel passaram em Portugal, sendo bem recebidos pela Corte.

-É pena que a Rainha Dona Maria I já estivesse enlouquecendo. Devíamos ter ficado em Portugal para sempre. Como o destino é imprevisível. Viemos terminar os nossos dias no Maranhão. –Dona Bernadina recordava com emoção.

-A culpa foi tua, Bernadina. É claro que eu gostaria de viver lá também ou então no Rio. O Maranhão é muito devagar para mim.

-Não faz muita diferença para mim, Montenegro. Eu quase não saio de casa. Tanto faz como tanto fez. Até que eu gosto dessa ilha. Faz calor, mas tem um agradável vento que vem do mar. Os sobrados se parecem com os de Portugal. Nesse ponto se parece com Vila Rica.

-É mesmo, disse o coronel abrindo a boca.

-No Maranhão, não tem aquelas intrigas políticas. É tranqüilo.

-Não tem? Você é que está por fora, Bernadina. O maranhão é terra de mexericos e de mentiras.

-É mesmo? Pois eu pensava o contrário. Então, eu prefiro ficar em paz na minha casa. Viver na rua só da confusão.

-Também não dá para se viver só enfurnado em casa.

-Vocês homens são mesmos rueiros. Só sabem viver na rua. Depois chegam em casa se queixando. E não se emendam. Meu filho Manuelzinho, não quero que fique perdido na rua. Quero que ele seja estudioso e goste de rezar.

Dona Bernadina beijou as faces rosadas do filho, que estava se agarrando nas pernas dela. Rosa chegou com uma chávena numa bandeja de prata.

-Ta quentinho, seu Montenegro, estendeu Rosa a chávena para o coronel.

-Rosa tu não trouxeste para mim, reclamou dona Bernadina com sua polidez.

-Ô, dona Bernadina, Lamentou Rosa botando a mão na cabeça.

-Traz um pouquinho minha negra.

-Está tão quente que pelou minha língua, exclamou o coronel fazendo uma careta.

-Montenegro, o Manuelzinho brinca sozinho. Às vezes fico com pena do meu filho não ter uma companhia para brincar. Seja feita a vontade de Deus que não quis que nascesse outro para fazer companhia a ele. A providência Divina só nos deu ele e assim mesmo já tarde. Já estamos velhos e ele ainda é criança. Meu filho qual foi o exercício que a professora passou para você?

Dona Bernadina tratava o garoto com mimo extremado. Manuelzinho mostrou-lhe o caderno de Português. O menino deixava-se afagar com prazer. Tanta era a ternura da mãe. Como dona Bernadina, ele era um criatura meiga, muito diferente do tipo rude do pai.

Manuelzinho pouco se comunicava com o pai. Tomava-lhe a bênção e nada mais. Dona Bernadina é que era o seu grande ídolo. Tinha um profundo amor por ela. Jamais dona Bernadina o tratou com rispidez. No máximo, fazia-lhe carinhosas advertências.

O menino era inteligente. Aprendia com facilidade as lições da escola e da vida que dona Bernadina lhe ministrava.

Certa vez dona Bernadina fora repreendida pelo coronel. Manuelzinho chorou solidário com a mãe. Naquele instante, teve vontade de ser adulto para enfrentar o pai de homem para homem. Se fosse grande não permitiria o tratamento rude que o coronel dera a mãe. Apesar do gênio pacífico, Manuelzinho não tolerava qualquer ofensa à dona Bernadina.

O sol declinava no poente. A tarde começava a ficar amena. O coronel tinha adormecido depois do chá. Dona Bernadina saiu na ponta do pés para não acordá-lo. Pediu a Manuelzinho para não fazer barulho.

Quando o coronel dormia reinava tranqüilidade na casa. Havia um silêncio de convento. Somente o coronel com sua voz alta e gestos autoritários quebrava a paz do lar. Os escravos sentiam-se aliviados.

Enquanto o coronel roncava, Domingos fumava um cigarro de palha. Dava cada baforada que a fumaça fazia uma densa espiral. Deitado no quarto dos escravos que dava para o quintal, Domingos passava a mão na barriga rija. Tinha os músculos avantajados e o maxilar anguloso. A sua tez era tão escura que brilhava.

Rosa era uma negra jovem como Domingos. Tinha o corpo bem detalhado. Pernas torneadas e cintura de violão. Aproveitando o sono do coronel, Domingos e Rosa ficavam juntos. Ela consertava roupas. Ambos odiavam o coronel. Mas, sentiam uma estima por dona Bernadina. Se dependesse do coronel, os pretos teriam vida igual a dos cães. Dona Bernardina era quem amenizava a situação deles, proporcionando-lhes alimentação, vestuário e teto decente. Se não fora como ocorria constantemente nas casas de fidalgos que castigavam demais os seus escravos.

Domingos sempre teve ímpetos de fugir toda vez que era humilhado pelo coronel. Rosa era quem o dissuadia a ficar, advertindo-o para as conseqüências de uma fuga. No auge da indignação, Domingos dizia que era melhor ser livre por um dia do que ser escravo a vida inteira.

-Calma Domingos, falava Rosa acariciando o negro.

-Não agüento mais. – Domingos desabafava cheio de ódio.

-Tem paciência.

-Só tu, Rosa, para me amansar.

Domingos ficava mais quieto com as ponderações de Rosa. Ele dizia:

-O coronel é mau.

-Todos eles são maus. Aqui, tem a vantagem de dona Bernadina ser uma pessoa boa. Nas outras casa não é assim. É pior.

-É… Se não fosse dona Bernadina, nós seríamos açoitados todos os dias. E só não nos ferraram no peito quando o coronel nos comprou porque dona Bernadina não deixou. Os outros escravos são ferrados como se faz com animais.

-Então é melhor ficar por aqui.

-Rosa, eu já ouvi falar que no interior tem quilombos onde a gente pode viver sem ser escravo de ninguém.

-Será que é verdade, Domingos?

-É sim. Há escravos que foram embora para lá e não voltaram mais.

-E como tem uns que voltam para a casa do senhor?

-Esses fugiram sem destino certo como merda n’água. Aí são pegos pelo capitão do mato. Quem vai direto para o quilombo nunca mais retorna.

Rosa dirigiu-se para a varanda onde dona Bernadina preenchia o tempo fazendo crochê. Com as mãos ágeis, ela tecia um guardanapo mais ou menos em um mês.

-A senhora quer alguma coisa, dona Bernadina? A escrava perguntou com as mãos nos quadris.

-Não. Agora não. – Dona Bernadina respondeu sem tirar a vista do crochê.

-Seu Montenegro acordou, disse Rosa.

Dona Bernadina olhou para o lado. O coronel estava enxugando o rosto numa toalha.

-Até que dormi bem. – O coronel mostrava-se tranqüilo.

-Viu, Montenegro, como o chá é bom?

Nuvens negras acumulavam-se no céu. Trovões e relâmpagos explodiam à distância.

-Bernadina, eu não vou mais sair hoje. Vai chover muito.

-Tomara, estamos precisando de chuva. Tão dizendo que o Rio Bacanga está secando por falta de chuva,

-Me lembrei agora de Vila Rica no inverno.

-E eu.

-Vila Rica não será mais aquela terra próspera como dantes. –Dona Bernadina voltou ao crochê.

-Será terra maldita e nada mais, – O coronel falava com mágoa.

-Tudo o que aconteceu lá parece um pesadelo. Muito ouro, muita opulência para terminar em nada. O dinheiro é mesmo coisa do demônio.

-Dinheiro, Bernadina, é a mola do mundo. Dinheiro é bom e eu gosto. Dinheiro é a minha paixão.

-Montenegro, para onde foi aquele ouro todo de Vila Rica?

-Ora, para Portugal.

-Aqui, no Maranhão, tem ouro? – Dona Bernadina tecia o crochê.

-Diziam que tem. O maranhão tem futuro. É uma terra rica. Vila Rica só tinha ouro.

-Pelo menos, Montenegro, nós estamos livres daquelas coisas ruins de Vila Rica.

-É o lado bom daqui. Vila Rica de triste memória, disse o coronel angustiado.

-O negócio, Montenegro, é não te envolveres mais em política.

-Tens razão. Política é a arte do diabo. Meu projeto é ganhar umas sesmarias e plantar cana de açúcar, algodão, arroz e criar boi.

Dona Bernadina parou o crochê. Ajeitou-se na cadeira para dar prosseguimento ao seu passatempo. O coronel disse que tinha ainda que trabalhar bastante para fazer fortuna e esquecer os acontecimento desagradáveis do passado. Indagado por dona Bernadina se não pretendia voltar para o quartel, o coronel falou que não tinha mais vontade de retornar à caserna, e que seu objetivo era dentro de algum tempo requerer a sua ida para a reserva.

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