Blog de Samuel Filho

A AGONIA DO TRAIDOR DE TIRADENTES (XI)

Posted on: 27 de outubro de 2014


joaquim_09

Capitulo XI

Dona Bernadina estava indecisa se comunicava ou não ao coronel o internamento de Rosa. Ela sabia que mais cedo ou mais tarde, ele ia dar pela falta da escrava. O receio de dona Bernadina era o de que o coronel poderia ter a saúde agravada com a notícia. Por outro lado, se não lhe dissesse, o coronel iria notar a ausência de Rosa, reclamar dela que estaria escondendo as ocorrências de Casa. Mordendo os lábios pálidos, dona Bernadina resolveu falar:

-Montenegro, eu internei a Rosa.

-Quando? Indagou o coronel com espanto.

-Hoje, quando você fazia a sesta. Ela está com varíola.

-Será que nós estamos contaminados?

-Deus há de nos proteger.

-E o negro Domingos que estava amasiado com ela não está com a peste também? – O coronel franziu a testa.

-Até o momento, não.

-É bom isolar ele também no hospital.

-Não, Montenegro, o Domingos está com saúde.

-Bernadina é devido a tua bondade que tu vais botar tudo a perder. Se essa varíola pegar na gente a culpa é tua.

-Se o Domingos apresentar qualquer sintoma da doença, a gente interna ele. No hospital não tem só escravos internados. Há fidalgos também.

-Olha aí, e você ainda está brincando. Vir para o Maranhão para morrer de varíola é uma condenação do demônio.

-Da maneira que você está pensando até o governador pode pegar varíola, disse dona Bernadina.

-Esse governador já é leproso. Cheio de sarna. Para ele pegar varíola é rápido.

-Coitado, ele é tão bom. Não mexe com ninguém. – Dona Bernadina abanou-se para diminuir o calor.

-Ele é bom para a panelinha dele. Para mim não deu nada. Qualquer hora dessa, eu faço uma carta para a Corte, contando toda a safadeza do governo dele, ameaçou o coronel quase gritando.

-Montenegro, você ainda quer entrar em política, depois de tudo o que aconteceu?

-Isso não é política. É apenas vingança. Você está muito iludida com ele. O Curuba só tem a aparência de gente que presta, com aquela cara de santo. Não vale uma pataca.

Dona Bernadina virou-se para o lugar em que Manuelzinho brincava solitáro. Ela disse ao coronel que estava com medo do filho contrair a varíola, já que estava sendo muito benevolente com os escravos.

-Você não se importou quando devia. Deixou que a negra Rosa permanecesse muito tempo doente em casa. Esse negro Domingos deve estar também contaminado.

-Ainda não, afirmou dona Bernadina.

-Como você sabe?

-Ele está  forte e disposto. Não sente nada.

-A Rosa também estava com saúde. De repente, apareceu cheia de feridas. Parece que estou com diarréia. – O coronel bateu na barriga.

-De novo, Montenegro?

-Agora é de velho.

O coronel apoiou-se na bengala e levantou-se, segurando no ombro de dona Bernadina. Pediu o vaso. Dona Bernadina disse que estava no banheiro.

-Tem papel?

-Tem tudo lá.

– Já caguei na calça, gritou o coronel.

-Aguenta um pouco, Montenegro.

-Está fedendo mesmo. – Dona Bernadina tapou o nariz com a mão.

-Mentira. Minha merda não fede.

-Não fede? Está podre.

-Ele passou mais de quinze minutos no banheiro,  com dor de barriga. Suou frio. – O coronel limpou-se e dona Bernadina trouxe-lhe cueca e um pijama limpos.

-Mamãe, estão batendo. É gente.

-Já vou meu filho.

Era o comandante Venâncio. Trajava roupa de passeio. A bota rangia. Apertou a mão de dona Bernadina, numa saudação cordial.

-Como vai o coronel?

-Daquele jeito. Fraco. Ele está na varanda.

-Força, coronel, disse o comandante, cumprimentando-o

-É o que está me faltando, respondeu o coronel mostrando-se cansado.

-Sente nessa cadeira, comandante. – Dona Bernadina apontou com o indicador.

O comandante puxou a cadeira um pouco para trás.

-Está um inferno, comandante. A negra daqui está interna com varíola. O negro deve estar perto de ficar com essa peste também. – O coronel mostrava-se amargurado.

-A varíola está atacando muitas pessoas. Lá, no quartel, houve mais dois casos de soldados com varíola. Mandei imediatamente para o isolamento do hospital. A Corte Real tem enviado remédios. O governador me falou que Dom João VI vem ajudando o Maranhão a combater a varíola.

-Para mim, a Corte não fez nada. São uns ingratos. No entanto, eu prestei um grande serviço à Coroa, denunciando os inconfidentes. – O coronel falava com ressentimento.

-Coronel, você só  pensa em si, disse o comandante em tom de brincadeira. O Brasil vai ser sede do Reino Unido. Pode acreditar.

-O Brasil não tem condições para isso. É sonho de louco.

-Você acha?

-Acho. É um país de índios e negros. Ai do Brasil se não fosse Portugal. O Brasil deve tudo aos portugueses.

Rindo com os dentes felinos, o comandante fitava o coronel, vendo à sua frente um homem que estava morrendo aos poucos. Dona Bernadina andava da varanda para a copa, cuidando do serviço de casa.

-Coronel, qualquer hora dessa eu venho lhe buscar para um passeio pela cidade.

-Com essa peste de varíola eu não saio nem na porta. Muito obrigado, comandante.

-Dessa vez, a coisa não está tão feia. Foi um pequeno surto. Dentro de poucos meses será debelado pelo governo.

-Comandante todo cuidado é pouco. Com esse governador que está aí, não se pode confiar. É um mole, sem pulso.

-Concordo em parte. O governador Paulo José da Silva Gama é uma pessoa pacata. Por isso, parece sem coragem. Mas, não persegue seus opositores como os outros governadores.

-Não persegue? Todos eles são perseguidores. A única coisa certa que ele fez foi proibir brasileiro de integrar o Senado da Câmara. – O coronel estava exaltado.

-A melhor obra dele para mim foi ter instalado o Tribunal da Relação.

-Foi uma besteira. Vai arranjar inimigos com esse tribunal. – O coronel cerrou os punhos.

-Coronel, eu quero lhe dizer que o governador muito lhe preza, disse o comandante.

-Também pudera. Eu sozinho destruir uma revolta contra a Coroa. Se não fosse eu, ele não estaria mandando nessa província hoje. Talvez, nem Portugal existisse no mapa. E Portugal ainda existe, graças aos ingleses. Aliás, comandante, eu deveria ter nascido inglês, que é um povo ousado e guerreiro.

O coronel falava como se estivesse recuperando a sua antiga energia. Ficou até vermelho de tão empolgado.

-Coronel, por que você não gosta do governador? – O comandante perguntou em tom confidencial.

-É metido a sério, mas por baixo dos panos protege os seus apaniguados. Nunca se lembrou de me dar nada. Dá sesmarias para os amigos e não se lembra de mim.

-Tenha paciência, coronel. Ocorre que o governador que agir de acordo com as cartas régias. Há pouco tempo foi baixada uma carta régia restringindo a concessão de sesmarias.

-Na minha idade não se tem mais paciência. Nem sei se estarei mais vivo amanhã.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Meu Twitter

Erro: o Twitter não respondeu. Por favor, aguarde alguns minutos e atualize esta página.

%d blogueiros gostam disto: