Blog de Samuel Filho

A AGONIA DO TRAIDOR DE TIRADENTES (XII)

Posted on: 30 de outubro de 2014


joaquim_09

Capitulo XII

Dona Bernadina providenciou o sepultamento de Rosa como merecia uma escrava de estimação. Domingos ficou inconsolável. Chorou ao pé da sepultura ao olhar pela última vez Rosa na rede com o rosto calmo e sereno de quem tinha se libertado da escravidão. Domingos tremeu de emoção quando o coveiro lançou as primeiras pás de barro sobre o cadáver de Rosa.

O cemitério era simples como os outros destinados aos negros, revoltosos, pobres e suicidas. Os fidalgos eram sepultados nas igrejas. Próximo à sepultura de rosa, enfileiravam-se cruzes umas atrás das outras. O mato cobria muitas delas. Havia algumas coroas de flores e restos de velas em torno das sepulturas.

De volta ao cemitério, Domingos ainda enxugava as lágrimas nas mangas da camisa de algodão de cor branca, uma das poucas roupas que tinha para vestir nessas circunstâncias. Os olhos estavam vermelhos de ter passado a noite em claro no velório de Rosa no hospital.

Domingos tropeçava de comoção. Andava instintivamente como se ao seu redor não existisse nada. A velha idéia de fugir para o quilombo reapareceu em sua alma angustiada. Domingos decidiu fugir depois do sétimo dia da morte de Rosa.

Entrou em casa com passadas leves. Sentiu a tristeza aumentar em seu coração. Ao penetrar no quarto em que viveu tantos anos com Rosa, a tristeza foi maior. Quase desmaiava. Tudo ali lembrava Rosa: as roupas deles guardadas com cuidado numa mala de madeira, um par de chinelos num canto e o banco que ela gostava de sentar-se nas horas de descanso. E a rede que servira de leito para o amor de ambos. O quarto cheirava a Rosa. Num momento, chegou a ouvir seus passos. Domingos chorou, ao perceber que era pura ilusão.

Dona Bernadina apareceu.

-Domingos, te acalma. A vida é assim mesmo. Seja feita a vontade de Deus. Reza que o sofrimento passa.

-É difícil, dona Bernadina, soluçou Domingos.

-Orar é a única forma de se livrar do sofrimento. O desespero não resolve nada. Eu também estou sentindo a morte de rosa. Ela me ajudou muito. Deus a tenha em um bom lugar.

-Para mim, o mundo acabou. – Domingos soluçava.

-Que nada, Domingos, você ainda é novo. Vai tomar um pouco de café na cozinha. Vou ver como está o Montenegro.

O coronel pensava num sonho que tivera dizendo alguma coisa.

-Estava me lembrando de um sonho. –O coronel gesticulou com a mão.

-Que sonho foi?

-Uma coisa meio estranha. Tem sonho que prefiro não ter.

-Foi bom ou ruim, insistiu dona Bernadina.

-Nenhuma  das duas.

-Não queres contar é até melhor.

-Talvez seja. Sonhar com Tiradentes não é uma boa coisa.

-Como foi? – Dona Bernadina indagou curiosa.

-Eu ia passando por uma Rua de Vila Rica e ele estava distribuindo barras de ouro para os pobres.

-Dizem que sonhar com ouro é coisa ruim que vem por aí.

-Doente como ando, não tem mais nada de ruim. Só quero que essa doença desapareça de uma vez ou então me despache para o além. – O coronel falava com o semblante de revolta.

O coronel espantou-se como se estivesse sendo perseguido. Dona Bernadina notou e perguntou:

-O que foi Montenegro? Você se espantou.

-É. De vez em quando tenho isso. Desde que sofri um atentado no Rio fiquei assim. Tudo isso é marca do que sofri por causa da Coroa. E ainda fui jogado fora como se fosse um lixo.

-Te acalma, Montenegro. Procura esquecer o que passou. –Dona Bernadina faz um carinho no marido.

-Bernadina, parece que quando o azar bate na porta da gente vem arrasando tudo. Fiquei doente. A negra Rosa morreu. Que o diabo a guarde entre os dele. Quero saber o que vem mais de ruim por aí.

-Não vem mais nada. Deus nos protege.

Dona Bernadina lembrou-se do pai. Era também um homem colérico como o coronel. Tinha pavio curto, como diz o adágio popular. Achava-os parecidos. Dona Bernadina foi tirada de sua recordação com os gritos de Manuelzinho.

-Meu filho, você está  tão grande para andar  caindo, comentou dona Bernadina um pouco assustada.

Ela foi buscar água para o garoto. Manuelzinho bebeu e sossegou-se. Dona Bernadina retomou a conversa com o coronel.

-Montenegro vamos ter que comprar outra escrava para substituir a Rosa.

-Com essa doença não tenho condições de comprar nada, disse o coronel enfastiado.

-Eu compro em teu lugar.

-Tu não sabes comprar escravo, Bernadina.

-Você me ensina como é e eu vou. – Dona Bernadina procurava contornar o impasse colocado pelo coronel.

-Primeiro você tem que examinar os dentes dos negros. Depois, olha o corpo inteiro. Tem que ser um negro novo e forte. Não comprar escravo velho, por favor.

-Temos que fazer isso urgente, Montenegro. Sozinha não vou suportar o trabalho de casa.

-Vamos esperar sair o dinheiro do quartel.

A noite surgia. As estrelas começavam a brilhar no espaço, com suas luzes cintilantes. A luz mostrava-se somente pela metade. O vento trouxe os acordes de um violão que tocava uma modinha nas proximidades.

Dona Bernadina acendeu os lampiões da casa. Havia  um na varanda. Outros na copa. O coronel pediu sopa, dizendo que não agüentava mais tanta fome.

Dona Brnadina teve vontade de ir rezar na igreja, onde estava havendo oração de noite pelas vítimas de varíola. Os sinos tocavam chamando os fiéis. No entanto, dona Bernadina não podia ir devido à doença do coronel. Tinha que se contentar em orar em casa. Conformava-se porque tudo atribuía aos desígnios divinos.

Como a noite estava fria, o coronel recolheu-se antes da hora habitual para o quarto de dormir. Antes de deitar-se rezou e mijou. Mijava várias vezes à noite. Chegava a mijar no pijama. O médico lhe falara uma vez que era problema de bexiga que aparece com a idade.

Dona Bernadina dormia profundamente. Casada do excesso de trabalho, não se acordava muito à noite. Não obstante a idade, ainda guardava alguns contornos da mocidade, vestida na camisola de dormir.

Manuelzinho falava dormindo. Sonhava com seus brinquedos e com a figura terna da mãe. O menino mexeu-se na cama. Gritou por dona Bernadina:

-Mamãe.

-Que é Menuelzinho? – Dona Bernadina despertou atordoada.

-Não quero mais dormir aqui.

-Por quê? Meu filho todo dia dorme aí.

-Eu vi um homem me olhando.

-Manuelzinho, aí não tem homem nenhum. É impressão tua.

O garoto levantou-se e caiu nos braços de dona Bernadina. Ela beijou-lhe, pedindo para dormir, porque o pai não devia ser acordado. Manuelzinho veio a dormir novamente. Dona Bernadina apurou os ouvidos para ver se tudo estava normal dentro de casa e depois voltou a adormecer.

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