Blog de Samuel Filho

A AGONIA DO TRAIDOR DE TIRADENTES (XIII)

Posted on: 31 de outubro de 2014


joaquim_09

Capitulo XIII

A madrugada estava fria. Em janeiro o inverno começa a se anunciar na ilha de São Luís. Já caíra duas chuvas torrenciais, devolvendo ao homem a esperança de que não havia seca. Antes de chover, comentava-se que as plantações e o gado estavam morrendo. O medo da seca foi dissipado com a chegada do inverno.

Domingos fumava um cigarro de palha. Pela última vez, olhava para o quarto que dividira com Rosa. As dores da recordação aceleravam a batida do coração. Percorreu todo o quarto, despedindo-se para sempre.

O cavalo Tróia relinchava na estrebaria, como que adivinhasse a partida do escravo. Domingos foi até Tróia. Este ficou contente ao ser alisado no pescoço. Tróia balançou o longo rabo de contentamento. Domingos passava as mãos no lombo de Tróia, no pescoço e no focinho.

O galo cantava avisando que ainda era hora de negar.

A aurora surgiu com sua cor rósea. Nascia um novo dia. Domingos contemplou o nascente com o colorido mágico e misterioso. A lua ainda projetada do lado oposto seu disco branco, cansada de iluminar a noite.

O mar rugia como se estivesse enfurecido. Ouvia-se o barulho do mar àquela hora. Vozes humanas vinham da praia. Domingos constatou que era chegado o momento de partir.

-Adeus, Tróia. Boa sorte. Eu vou pro quilombo.

Domingos saiu de casa sem ser percebido.

Dona Bernadina, que acordava cedo, foi  à  cozinha preparar o café. Nesses momentos sentia falta de Rosa. Nunca mais tivera descanso. De manhã à noite era uma labuta incessante.

Depois, foi ao quarto de Domingos pedir para ele fazer as comprar do mercado. Dona Bernadina deteve-se ao não ver ninguém. E chamou:

-Domingos, Domingo, Domingos…

Silêncio. Somente o eco da voz de dona Bernadina respondia. Ela chamou novamente. Nada. Foi ao quintal, não encontrou Domingos. Só o cavalo Tróia dava sinal de vida, relinchando. Dona Bernadina esqueceu por  um instante Domingos, ao se espantar com a queda de uma manga no chão. A manga era amarela e arredondada. Dona Bernadina apanhou a manga. Veio-lhe a suspeita de que Domingos fugira para o quilombo. Ela chegou a ouvir Domingos dizendo para Rosa que lá era bom e não era escravo  de  ninguém.

Dona Bernadina retornou para dentro de casa desorientada. Para ela, a situação se complicava com a fuga de Domingos. Considerou-o um ingrato, pois fugira no momento em que mais precisava dele. Agora, concordava com algumas coisas do coronel. Mas, entregou tudo ao julgamento de Deus. Deus era o bálsamo espiritual nos instantes de aflição.

-Seja feita a Vossa vontade, murmurou.

Ela começou a martelar a cabeça, fazendo suposições sobre o desaparecimento de Domingos. Não mandara ele ir cedo para qualquer lugar. Não tinha dúvida de que o negro fora embora.  Lembrou-se das constantes advertências do coronel de que escravo não prestava, e que por isso não devia ser tratado como gente. Se contasse ao coronel, iria ser um dramalhão. Ela seria acusada pelo coronel de responsável pela fuga de Domingos.

Dona Bernadina procurou colocar as ideias em ordem. Era necessário dar um tempo. Fez uma prece rápida para que Deus protegesse o seu lar, sacudido ultimamente por tantos acontecimentos ruins.

Ao chegar à copa,  dona Bernadina encontrou o coronel e Manuelzinho sentados, esperando-a para tomarem café. Dona Bernadina serviu-os. O coronel comia o bolo de tapioca com apetite. Dona Bernadina disse que o marido não podia comer muito. Não deveria passar por cima da dieta. No dia anterior havia se excedido no almoço e no jantar, comendo como se estivesse em plena mocidade.

-Ah, Bernadina, não vou morrer de fome.

-Montenegro, tem que comer moderadamente.

-É por falta de boa alimentação que venho ficando fraco. – O coronel falou chateado.

-Dieta é assim mesmo, disse dona Bernadina.

O coronel estava com olheiras, que mostravam vir ele dormindo mal. Magro, nem parecia aquele homem forte e disposto de outrora. Até as mãos tremiam.

Dona Bernadina pensava na fuga de Domingos. Mais um quebra cabeça para seu dia a dia. Tinha urgentemente que comprar pelo menos uma escrava. O dinheiro do coronel não dava para comprar dois. Uma escrava daria para ajudá-la em casa. Ouviu uns passos vindos do quintal. Virou-se para ver. Não era nada. Àquela hora,  Domingos deveria estar longe. Não tinha a mínima ideia para que lado ficava o quilombo. Uma vez disseram-lhe que havia um na baixada maranhense, nas imediações de Guimarães. Dona Bernadina procurava imaginar como era a vida dos negros no quilombo. Como viveriam? Era melhor que serem escravos nas casas dos fidalgos? Tinha conhecimento de que o governo mandava de tempos em tempos forcas militares atacarem os quilombos, destruindo-os a ferro e fogo. Isso sempre ocorria quando os quilombos começavam a se expandir, ameaçando a vida dos donos de fazenda.

Foi arrebatada dos seus pensamentos ao notar que tinha de fazer compras em lugar de Domingos. O coronel levantou-se e foi  apoiando –se  na bengala para sentar-se na preguiçosa. Manuelzinho saiu para brincar. Dona Bernadina tirou da mesa as louças e limpou a toalha com um espanador. Viu que o chão estava sujo por falta de varrição.  A limpeza da casa era importante, mas agora tinha que tratar das coisas mais imediatas como ir ao mercado e fazer a comida.

O coronel  batia com a bengala no chão, cismando. Traçava um triângulo com a bengala. Dona Bernadina aproximou-se dele:

-Montenegro, eu vou fazer umas compras no mercado.

-Como? – O coronel precisava de uns dias para cá que se repetisse o que estava falando para ele.

-Vou ao mercado fazer compra, repetiu dona Bernadina.

-Eu vou ficar sozinho?

-É o jeito.

-Por que não manda o negro Domingos?

-Ele não sabe fazer as compras que eu quero. Não se preocupe que eu volto logo.

-Não demora, por favor.

Dona Bernadina sentiu uma tremedeira nas pernas ao se referir a Domingos para o coronel como se o escravo estivesse em casa. Aliás, nem sabia direito se o negro tinha ou não fugido. Ocorreu-lhe a ideia de que domingos tivesse ido ao cemitério visitar a sepultura de Rosa. No sétimo dia de morte de Rosa, Domingos fora ao cemitério, ao cair da tarde, levando flores e velas. Não tinha certeza se o negro estava para o cemitério. Logo tão cedo, era uma visita esquisita. De qualquer maneira era bom silenciar para evitar transtorno ao coronel.

-Vem logo, disse o coronel com a voz débil.

-Não demoro, respondeu dona Bernadina, saindo.

O coronel cismou com a bengala na mão. Sentiu falta da presença do comandante Venâncio, que estava há dias sem aparecer. Até que o comandante tinha uma boa conversa e era uma pessoa gentil. Visitava-lhe constantemente depois que adoecera. Talvez, uma das  poucas pessoas com quem poderia contar em momentos difíceis.

A cabeça doeu. O coronel incomodou-se com umas pontadas na nuca. De vez por outra essa dor lhe aparecia. Esfregou a cabeça para passar a dor. A cabeça esquentava.

O coronel recordou-se do dia em que chegara a São Luís em um navio procedente do Rio. Foi uma viagem que durou muitos dias. Só houve um contratempo ao desabar um temporal em pleno mar. As águas violentas do oceano subiam, molhando o convés do navio, que em certo momento parecia que ia naufragar. Como tinha feito outras viagens de navio, já sabia que era cheia de imprevistos. Ao avistar a ilha de São Luís,  levantou-se curioso para ver como era a cidade. O mar estava calmo e se estendia infinitamente. Achou a cidade pobre, se comparada com o Rio ou Lisboa. O comandante do navio, um português atarracado e de bigode, reclamou do porto de São Luís, que era ruim para os navios atracarem.

Sentiu mais uma fisgada na nuca. Doía intensamente. O corpo estava paralisando de um lado. Sentiu medo. Dona Bernadina não estava ali para socorrê-lo. Quis levantar-se para andar um pouco. Podia ser que melhorasse. Não pôde. Sentiu um calor como se algo fosse estourar por dentro.

Manuelzinho brincava sem suspeitar que o pai passava mal. O coronel pensou em chamar o menino para junto de si. Manuelzinho não podia fazer coisa alguma. Deu razão a dona Bernadina que de manhã cedo o advertira que comera muito no dia anterior, quebrando a dieta recomendada pelo médico.
O cérebro do coronel era um caos. Desfilaram em sua retina as figuras de Tiradentes, dona Bernadina, do comandante Venâncio e dos escravos Domingos e Rosa. Até as sesmarias povoavam-lhe a mente agonizante.

A boca ficou torta. O coronel arquejou sentindo um peso no braço esquerdo. A respiração ficava cada vez mais difícil. Ele procurava ar e não mais respirava livremente. Ergueu-se num ultimo esforço de sobrevivência. Caiu na preguiçosa com os olhos arregalados e a língua com a ponta para fora.

Da varanda, onde o coronel pendia sem vida, via-se o céu claro. Numa árvore do quintal, um pássaro cantava esperança para o mundo, apesar da traição.

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