Blog de Samuel Filho


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Só fui ao presídio porque se tratava de visita a um amigo que tinha sido condenado à prisão por tentativa de homicídio. Do contrário, jamais teria colocado os meus pés, ali.

É que sou traumatizado com cadeia. Entre várias prisões que tive, uma delas me marcou bastante. Colocaram-me numa cela junto com ladrões e assassinos. Lá, eles mijavam e cagavam. Imaginem o meu cheiro. Passei a noite em pé, sem coragem de sentar. Os outros, já acostumados, enfrentaram o cárcere com mais paciência.

Havia muitas pessoas no presídio. O ambiente estava animado. Percebia-se no semblante dos detentos um ar de alegria devido à visita de familiares e amigos. No pátio onde se encontravam presos e visitantes busquei encontrar o meu amigo. Andei para um lado e para o outro. Sentei-me ligeiramente perdido. Com as mãos no bolso, olhos vagos, parei para melhor me situar naquele mundo que não me era estranho. Encostei-me numa coluna observando algumas pessoas conversarem e caminharem. Minha atenção foi atraída por  uma cena que até hoje me comove. Uma senhora de cabelos prateados, branca, bonita na sua velhice, cobria um detento de beijos e ternura. Pensei imediatamente que deveria ser mãe e filho.

O surgimento repentino do amigo arrancou-me da cena. Demos as mãos um ao outro, cumprimentando-nos. Achei-o melancólico. Não era para menos. Ele estava preso por uma má sorte ou como queiram por fatalidade do destino.

– João, disse, o negócio aqui é pesado. Tem hora que quase perco a paciência. A liberdade da gente é a melhor coisa do mundo, por pior que seja a vida lá fora.

– Eu entendo, Paulo. Já fui preso várias vezes. Temos que aproveitar o tempo aqui e fazer alguma coisa. Não se pode é ficar pensando dia e noite, senão ficamos loucos.

– Trabalhar ou jogar, o que faz o tempo passar, está difícil por aqui. Depois que houve uma rebelião de presos é o maior rigor sobre os passos da gente.

Sentamos num banco de cimento. O burburinho de vozes dominava o clima da cadeia. Eram vozes e passadas. Paulo fumava com ansiedade. Disse-me que seu advogado estava tentando obter sua liberdade condicional. Falei-lhe que devia conseguir, porque era réu primário. Mas, Paulo, impaciente, com razão, claro, esculhambou a justiça de insensível e morosa…

Descontraímos a conversa. A tarde esvaía-se entre sombras. Bati no ombro dele e dei-lhe ânimo. A mãe e o filho passaram abraçados em nossa frente. Fiquei, mais uma vez, absorto com a demonstração de amor e carinho dada pelos dois.

– Quem é esse rapaz que passou abraçado com aquela senhora? Perguntei a Paulo ansioso para matar minha curiosidade.

– Adivinha? Disse Paulo, com um sorriso amargo.

– É a mãe dele, afirmei.

– Não.

Paulo me olhou com malícia. Esperou minha reação.

– Então o que ela é dele?

Paulo foi incisivo:

– Ele é o assassino do filho dela…

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