Blog de Samuel Filho

SUA MAJESTADE O ÁLCOOL

Posted on: 25 de junho de 2015


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Ao levantar-se ainda bêbado, Tião ia imediatamente ao guarda-louça, onde escondia o litro de cachaça. Hoje, estava com mais “sede no pote”, como dizia com ironia. Encheu o copo da amarelinha, devagar, para que a mulher, ainda deitada, não ouvisse qualquer ruído.

Ergueu o copo com a mão direita para cima, dizendo mentalmente que o álcool jamais iria destruí-lo. Bebeu com sofreguidão e foi para o quintal atrás de uma folha de boldo. Mastigou e vomitou, sentindo o gosto amargo. Lavou a boca, o rosto e os olhos lacrimejantes. Todas as manhãs, vomitava ao tomar o primeiro gole.

Pensou no irmão que morrera aos 40 anos de pancreatite, em consequência da bebida. Tião tomou um copo d’água e tentou beber outra vez. Agora, a amarelinha desceu goela abaixo suavemente. Tomar cachaça àquela hora estimula a inspiração.

Olhou-se no espelho e percebeu que estava papudinho. Reconheceu que não era para menos, pois bebia, de manhã à noite, com intervalos para dormir dopado pelo álcool. Comia sem apetite algumas colheres de arroz, feijão e um pedaço de carne.

Dona Josefa , sua mulher, retrato fiel de santa, percebia, lá pelas 9 horas da manhã, que o marido já estava bêbado e ponderava com gestos polidos:

– Rapaz, desse jeito, você vai morrer.
– Se eu morrer, tudo bem. Não nasci pra pedra.
-Pacientemente, ela molhava as plantas. Tião continuava bebendo, ouvindo MPB e fantasiava a vida à maneira dos ébrios.

Zé Maria era dono de um boteco, perto de casa, onde comprava fiado. Consumia cachaça e cerveja, justificando que esta era “para lavar o peritônio”. Zé Maria era um alcoólatra da passiva, deixou de beber há 25 anos, após ter ingressado nos Alcoólicos Anônimos. O comerciante contava a Tião os sofrimentos que passara quando estava na ativa.

– Tião, a bebida me deu muito prazer, mas me destruiu. Eu tinha um comércio cinco vezes maior que esse aqui. Acabei tudo com a bebida. Por último, fiquei apenas com a roupa do corpo. Voltei para casa de minha mãe com uma sacola na mão. E os amigos sumiram quando meu dinheiro acabou.

Tião, mesmo bebendo, ouvia a história comovente de um alcoólatra.

Com gestos dramáticos, narrava na frente da quitanda a sua trajetória de beberrão. As pessoas que passavam na rua ou entravam no comércio já sabiam que Zé Maria estava falando do seu passado de alcoólatra. Um antigo morador dali debochou do comerciante:

– Também, Zé Maria, se você não tivesse deixado a bebida já teria morrido. Era uma cachaça muito louca. Um dia você desfilou na rua completamente nu.

Já tinha muita gente entrando e saindo e as gargalhadas tomaram conta do ambiente. Zé Maria ficou com a cara fechada, talvez contrariado com a lembrança, mas controlou-se.

Os dois sempre conversavam sobre alcoolismo, sendo que Tião fazia restrições às opiniões de Zé Maria, considerando que se tratava de trauma, achando que se poderia beber com controle.

Agora, no entanto, dava razão para Zé Maria, que repetia como refrão: “o alcoolismo é uma doença progressiva”.

Tião percebia que  estava aumentando o seu alcoolismo. Zé Maria dizia para ele:

– Eu comparo a bebida a uma roseira. Tem beleza, mas fere com seus espinhos.

Tião convenceu-se de que Zé Maria estava certo. A conversa com uma pessoa que sofreu tanto devido ao álcool vale mais do que a leitura de muitos livros sobre alcoolismo. Zé Maria, observando que Tião estava caminhando para o fundo do poço, disse-lhe:

– Olha Tião, eu sou teu amigo, porque és um cara bacana. Mas, toma cuidado com a tua bebida. Tu és quem escolhe: viver mais ou morrer dentro de pouco tempo.

Deprimido, Tião concordou, balançando a cabeça e braços cruzados. Zé Maria sentenciou:

– A escolha é tua: viver bem com tua família ou sofrer e fazer eles sofrerem por tua causa.

Tião chorava por dentro. Acendeu um cigarro, calado. Zé Maria contou emocionado, voz grossa, a sua experiência trágica:

– Quando eu me conscientizei de que o álcool é uma doença, levado bêbado pela minha filha, depois de bater nela por censurar a  bebida, cheguei num grupo do  AA e sentei no banco dos réus. Lá contei todas as desgraças que esse monstro me infligiu. Sua majestade, o álcool, não me domina mais, se Deus quiser. Todos os dias, peço a Deus para não beber.

Mostrando uma garrafa de vodka lacrada, Zé Maria ergueu-a triunfante, falando que a vodka fora a única que não bebeu e ficará ali como um testemunho de que acorrentou o diabo da cachaça.

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