Blog de Samuel Filho

A ERA DIGITAL

Posted on: 3 de outubro de 2015


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TRANSCREVEMOS UMA PARTE DA ENTREVISTA QUE O SOCIÓLOGO MASSIMO DI FELICE CONCEDEU À REVISTA DO INSTITUTO HUMANITAS SOBRE A REVOLUÇÃO DIGITAL:

” IHU On-Line – Como podemos compreender a importância e o significado das redes digitais no contexto atual?

Massimo Di Felice – Como aconteceu em outras épocas da história, o advento de uma nova tecnologia comunicativa gera transformações qualitativas em todos os setores da sociedade. Marshall McLuhan foi um dos poucos autores do século XX, junto a Walter Benjamin, a observar a importância das mídias a das formas comunicativas no interior dos processos de transformação social. Nas ciências sociais, como é conhecido, difundiu-se no século XX um paradigma interpretativo que analisava a função social das mídias a partir de uma perspectiva instrumental que julgava a comunicação como uma simples atividade de repasse das informações entre os atores sociais e, portanto, atribuindo-lhes a simples função de veículo e representando-as como um conjunto de canais passivos e jamais intervenientes como partes ativas no processo.
Ao contrário, como observado por McLuhan, a função social das mídias não se limita ao seu conteúdo ou ao seu impacto social: “As sociedades sempre foram influenciadas mais pela natureza dos media, através dos quais os homens comunicam, do que pelo conteúdo da comunicação”. Daqui a necessidade de repensar a função social da comunicação que se estende para além do impacto social de seu conteúdo ou da sua função política. Descobre-se, assim, a partir dessa ótica, a importância estrutural da introdução de uma nova tecnologia da comunicação, do advento da escrita na cultura ocidental, da impressão no século XV, através da invenção de Gutenberg , assim como da eletricidade e das mídias de massa no século XX. A cada uma dessas revoluções comunicativas alterou-se não apenas a forma de comunicar – isto é, a quantidade do público atingido pela informação, reduzindo-se o tempo e os custos necessários a difusão –, mas também a sociedade inteira que passou por qualitativas transformações.
Revolução digital, revolução comunicativa

A revolução digital é hoje a última revolução comunicativa que alterou, pela primeira vez na história da humanidade, a própria arquitetura do processo informativo, realizando a substituição da forma frontal de repasse das informações (teatro, livro, imprensa, cinema, TV) por aquela reticular, interativa e colaborativa. Surge, portanto, uma nova forma de interação, consequência de uma inovação tecnológica que altera o modo de comunicar e seus significados, estimulando, ao mesmo tempo, inéditas práticas interativas entre nós e as tecnologias de informação.

É evidente como, perante tais perspectivas, se faz necessária uma nova teoria social das mídias e uma nova perspectiva dos estudos de comunicação. Não podemos mais pensar as mídias como “ferramentas”, instrumentos a serem utilizados, pois, ao utilizarmos novos meios, passamos a desenvolver novas formas de interação e experimentamos novos modos de comunicar, por exemplo, as redes sociais e os smartphones são portadores de inovação não apenas no âmbito tecnológico, mas também no social, sensorial, político, econômico e cultural.

Evidencia-se em tal perspectiva uma importante dimensão social da técnica que as ciências sociais abordaram geralmente de forma superficial, preferindo se concentrar na análise políticas dos impactos e de seus efeitos, valendo de uma perspectiva dialética que compreendia a técnica como algo externo ao social e, consequentemente, como uma ameaça às atividades humanas e à sociedade como todo. Se continuarmos a concentrar nossa atenção apenas nos efeitos dos “meios” e na dimensão política de suas mensagens, não conseguiremos mais entender as transformações sociais em ato e suas dimensões tecnossociais.
IHU On-Line – Em conferência recente, o senhor abordou o conceito de “pós-complexidade”, propondo um modo de pensar a comunicação digital a partir de um “paradigma reticular”. O paradigma complexo está superado? Que questionamentos as redes colocam à reflexão contemporânea?

Massimo Di Felice – As redes digitais, isto é, o conjunto de redes de redes, apresentam-se, antes de tudo, como um problema hermenêutico. Quando falamos de rede não estamos falando de um sistema. A forma rede é sempre um conjunto de redes de redes, isto é, um conjunto de conjunto de inter-relações, cujos limites ou perímetros são ilimitados e remetem, sobretudo, a mais de um sujeito.
Uma vez que o repasse de informações não é mais frontal (emissor-receptor), este acontece entre diversos membros e coletivos; a digitalizar-se não são apenas as relações comunicativas entre as pessoas, mas também os territórios, as mercadorias, os objetos, o meio ambiente, a natureza etc. Devemos pensar, portanto, o processo comunicativo em rede como um ecossistema e, portanto, sujeito como todos os ecossistemas a um conjunto de relações com os outros ecossistemas no interior da biosfera que torna cada um parte de uma rede de redes.

A delimitação de um ecossistema é uma operação arbitrária, legítima, contudo, não objetiva. Como nos explicam as ciências biológicas, quando nós falamos de um ecossistema qualquer, por exemplo, uma lagoa, nós estamos incluindo nesse o conjunto de populações vegetais, animais e minerais aí residentes. Porém, ao fazer esta soma, devemos incluir também as aves, parte das quais por metade do ano emigram para outras localidades, modificando com as suas ausências o meio ambiente, como também a ação do animal humano que resultará nas emissões de CO2, pela eletricidade pela difusão no território de elementos químicos, etc., estendendo o microclima e a delimitação ecológica dos ecossistemas, para além do perímetro da própria lagoa. Se acrescentamos a esses elementos a quantidade de chuva ou a luz do sol, elementos fundamentais para o normal funcionamento do ciclo de vida dos ecossistemas, entendemos que ele seja um conjunto de redes de redes indelimitável. Quando falamos de comunicação em rede devemos ter presente tudo isso.
“Somos rede”

Mas existe outro elemento decisivo que devemos levar em conta e que nos leva a superar a lógica do sistema. Esse elemento está relacionado à impossibilidade da visão externa do conjunto de redes de redes. A única forma para observar um processo reticular é fazer parte dele, experimentá-lo e, portanto, alterá-lo, modificá-lo, aspecto este que impossibilita a sua percepção objetiva. Acontece numa arquitetura reticular algo próximo ao que aconteceu no estudo da matéria na física, em particular, algo próximo ao princípio de indeterminação de Werner Heisenberg , que estabelece uma relação dialógica entre o observador e o objeto observado. Tal relação se dá não apenas no momento da observação, mas também na fase anterior e em todas as fases da pesquisa.

Como é conhecido, o estudo das partículas subatômicas pressupõe a escolha prévia de uma específica teoria da matéria, cuja opção irá determinar o tipo de objeto a ser observado. Portanto, o resultado do nosso pesquisar mudará conforme a nossa ideia de rede e o tipo de concepção de rede que elegemos antes de começar a observação. Como observou George Bateson, não podemos nos colocar externamente a um processo comunicativo reticular, pois estamos nele, fazemos parte dele, assim como ele nos compõe.

Estamos, portanto, perante um tipo de complexidade não sistêmica enquanto não composta nem subdivisível num conjunto de partes interdependentes, pois seus fluxos informativos não são lineares e suas dinâmicas interativas não são frontais. Parece-me que a perspectiva reticular supera a dimensão multicausal e aquela da reversibilidade da complexidade, apresentada por Edgar Morin  na obra “O Método”.

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