Blog de Samuel Filho

A POÉTICA DE NAURO MACHADO ( IV)

Posted on: 17 de janeiro de 2016


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A cinestesia de Nauro Machado é particularmente fenomenal como podemos constatar pela leitura da sua extensa obra poética. Transcrevemos, aqui, uma estrofe da composição em sextilha “ Angústia Larvada no Tempo ” do livro O EXERCÍCIO DO  CAOS (1961)

‘‘… e indissolúvel morte asfixia o corpo

( e a mãe justifica o filho no ventre ),

eu, por mim não escolhido ou aceito; eu, sóbrio

fruto por onde cai o auxílio próprio

de mim, do meu medo , enorme, de o fruto,

real, ser o ser no que há de vir

ou que não virá na aceitação : paz…”

Paralelamente observamos o domínio técnico do autor na arte da poesia. O poema acima é um exemplo, entre muitos outros, da fascinante  capacidade de construir versos livres. Mais adiante, vamos salientar, a qualidade dele de como um bailarino clássico  que transita com  extrema maestria entre as formas antigas e modernas de versejar.

Em DO FRUSTADO ÓRFICO (1963), pinçamos está perola :

“ Ó Paz

dos dentes :

que pás

ardentes ”

SEGUNDA COMUNHÃO (1964) revela o dom altamente cinestésico de Nauro Machado. No poema “ Encargo ” nos deleitamos :

“ Enterrei os cadáveres das meninas

com mãos pelo pranto decepadas.

Enterrei os seios das meninas, como limões

que guardassem os cavalos da carne ”

Assim, navegamos no oceano ignoto da arte poética desse vate imortal, que será justamente homenageado pelos séculos dos séculos. Para dissecar tanta riqueza genial do maior herdeiro da terra dos poetas, que é o Maranhão, seria necessário examinar em grupo por muito tempo uma obra que surpreende o mundo, sem medo de estar exagerando.

OURO NOTURO (1965), ZOOLOGIA DA ALMA ( 1966), NECESSIDADE DO DIVINO (1967 ), NOITE AMBULATÓRIA ( 1969) , DO ETERNO INDEFERIDO (1971), DÉCIMO DIVISOR COMUM ( 1972 ), TESTAMENTO PROVINCIAL ( 1973 ), A VIGÉSIMA JAULA ( 1974), OS PARREIRAIS DE DEUS (1975), OS ÓRGÃOS APOCALÍPTICOS ( 1976 ), ANTIBIÓTICA NOMENCLATURA DO INFERNO (1977), MASMORRA DIDÁTICA (1979), AS ÓRBITAS DA ÁGUA ( 1980), O CALCANHAR DO HUMANO (1981),  O CAVALO DE TRÓIA ( 1982) , O SIGNO DAS TETAS ( 1984), APICERUM DA CLAUSURA ( 1985) , OPUS DA AGONIA ( 1986) , O ANAFILÁTICO DESPERO DA ESPERANÇA ( 1987) , A ROSA BLINDADA (1989), MAR ABISTÊNIO (1991) , LAMPARINA DA AURORA ( 1992), FUNIL DO SER ( CANÇÕES MINIMAS) (1995),  A ATRAVESSIA DO RÓDANO (1997) , TÚNICA DE ECOS (1999) , O ALAÚDE AMBÍGUO ( 2002), A ROCHA E A ROSCA (2003) , PÃO MALIGNO COM MIOLO DE ROSAS ( 2004).  Estes livros contêm o mesmo nível estético e cinestésico do oficio de profissão de fé que  Nauro Machado elegeu como causa maior de sua existência. Segundo o cineasta Frederico Machado, filho de Nauro  e da escritora Alerte da Cruz  Machado, o poeta deixou inéditos outros livros, mas a coluna vertebral da poesia desse “mestre da província ”como disse o escritor Josué Montello, permanece com a mesma essência estético – filosófica.

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