Blog de Samuel Filho

A MAGIA DO CREPÚSCULO

Posted on: 29 de novembro de 2016


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Bastava o sol começar a declinar, ficar vermelho, no horizonte, com uma explosão de nuvens, com figuras de vitrais, cheia de fantasmas, que ela ficava melancólica; e isso era quase todo dia, melancólica.

Não conseguia ficar em casa. Arrumava-se e dizia que ia para a casa de sua mãe. Eu ficava com medo. E dizia que ia com ela. “Não. Eu vou só. Quero ficar sozinha e perto de minha mãe. Quero que ele me dê o seu peito, me bote no colo, até anoitecer, enquanto o sol não declinar completamente, eu não consigo ficar em paz. E só o peito de minha mãe me sossega”.

Eu tinha que escutar essa ladainha. Ficava triste. Fechava a porta de casa e não deixava que ela saísse. Ela ficava num pé e noutro, xingava-me, ameaçava quebrar tudo. Eu telefonava para sua mãe. Ela vinha para a nossa casa. Aí, ela se acalmava mais. E nós ficávamos abraçados, esperando que a noite terminasse de invadir o fim do dia. Então, tudo se acalmava.

Ela ia dormir. O dia amanhecia. E eu ficava esperando, preocupado, o entardecer. O sol vermelho no horizonte. As nuvens explodindo, sangrando. E as mesmas coisas se repetindo no fim da tarde. O anjo anunciando a anunciação.

Até que um dia, a noite caiu de vez, sem a ponte do crepúsculo, devido um temporal que atingiu a cidade. Em nossa casa, um para-raios nos salvou de um relâmpago. E fez minha mulher tremer com medo de um trovão.

No outro dia, esperei, preocupado, o seu comportamento ao entardecer. Tamanha foi a minha surpresa.

Ela apenas disse:

– Que belo pôr do sol. Tão lindo que dá medo.

*Geraldo Almeida Borges

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