Blog de Samuel Filho

Arquivo por Autor


2707466-3x2-940x627

-explosão do universo
-morte parida
-ejaculação da carne
-enforcamento do suicida
-tudo por um momento


DSC00202

Por essas ruas seculares
piso sobre os rastros
dos meus antepassados:
meu pai minha avó
minha bisavó negra escrava
que apanhava de chicote
dos poderosos da época

sobradões mirantes igrejas
estátuas ruas e vielas
testemunhas insuspeitas
dos horrores da escravidão

São Luís pátria consanguínea
carrego nas veias tua história
por hereditariedade

Ah ilha colonial imperial
cara fantasia que apalpo
nos momentos de recordação


20150717_153246-1[1]

meu pé quebrado
traduz a amputação
da compulsão poética
no entanto o poema
serve de muleta
e meu pé é apoiado
pela força do soneto
Sem rima e sem métrica

(Poema de Samuel Filho do livro POÉTICA EM CLAVE DE SOL)


01818_gg

O jornalista e poeta piauiense Mário Faustino, falecido ainda jovem em desastre aéreo, legou-nos uma obra já bastante estudada dentro da teoria literária tradicional. Fizemos a leitura do soneto ESTAVA LÁ  AQUILES,  QUE ABRAÇAVA (GRANDES SONETOS DA NOSSA LINGUA) selecionado e organizado por José Lino Grunewald).

Experimentalista orgânico,  o vate genial  fez testes  impressionantes, considerando-se os objetivos vanguardistas de renovação estética do seu tempo. Rcompeu, por exemplo, com  formas antigas  de versificação, com belos resultados em termos formais

Pretendemos, aqui, somente comentar o soneto sob a ótica da PNL-Programação Neurolinguística. A  PNL foi criada nos Estados Unidos nos anos 70 por Richard Bandler e John Grinder. Lá pelos idos  da década de 90, essa psicologia cognitiva  foi muito divulgada no Brasil  e, equivocadamente, rotulada como mais uma panacéia. Atualmente proliferam institutos de PNL em nosso país e no mundo. Há congressos nacionais e internacionais, anualmente.

Desculpem se estou me alongando sobre os esclarecimentos em torno da PNL, mas julguei-os necessários. Joseph O’Connor e John Seymour definiram a PNL, textualmente: “ A Programação Neurolinguística é a arte e a ciência da excelência. Ou seja, das qualidades pessoais. É arte porque cada pessoa imprime sua personalidade e seu estilo àquilo que faz, algo que jamais pode ser  apreendido através de palavras e técnicas . E é ciência porque utiliza um método e um processo para determinar os padrões  que as pessoas usaFm  para obter excepcionais resultados naquilo que fazem”.

Na análise que tenho feito de textos poéticos, segundo a PNL, utilizo conceitos como  mapa, território, cinestésico, audição, visão, ancoragem, ecologia, epistemogia, filtros perceptivos etc.

Mário Faustino quando escreveu  ESTAVA LÁ  AQUILES, QUE ABRAÇAVA  tinha como território a mitologia grega: “ Estava lá Aquiles, que abraçava/Enfim Heitor, secreto personagem…”  Ao elaborar a poesia, o estado interno dele revelou aspectos da realidade mitológica da Grécia de Zeus. E podemos até arriscar que Faustino bebeu nas fontes da ILIADA e da ODISSEIA, de Homero,   para extrair conhecimentos sobre a matéria.

Continua o soneto: “ Estava lá Saul, tendo por pajem /David,que ao som da cítara cantava; …”

O poeta sai do território da mitologia para  personagens bíblicos. O soneto mostra que o mapa de crenças e valores apresenta-se eclético, no bom sentido, porque universalista, baseando-se em duas culturas que marcaram fundamentalmente o destino histórico da humanidade. E não poderia ser diferente para um brasileiro.

Faustino canta com uma visualização que alcança horizontes longínquos: “…Era a cidade exata, aberta, clara: Estava lá o arcanjo incendiado/Sentado aos pés de quem desafiara;… Finalizando o soneto: “…E estava lá um deus crucificado/ Beijando uma vez mais o enforcado. O sentimento de perdão do cristianismo está evidente no último verso do poema.

Do ponto de vista da PNL, o soneto exibe os filtros perceptivos de Faustino, que captaram durante 34 anos de uma existência intelectualmente fecunda  Informações e eventos marcantes da cultura mitológico-cristã, alem de ter sido reformista da moderna poesia brasileira.


DSC00697

Naveguei só uma vez
no transatlântico
do amor impossível
por uma sereia
na praia de São Luis

Já sexagenário
amara somente a pátria
mergulhado no mar negro
de uma ditadura fascista

Nessa navegação de coração
ouvíamos as ondas sonoras
de uma clave sem fá

Migrei da maturidade
para a adolescência
igual a cardume de peixes
tal a feitiçaria do amor
banhado por águas salgadas

Mil declarações de amor
de envergonhar Camões
insensível a sereia apenas
fitava-me com seus olhos verdes
iguais à vastidão oceânica

Insisti em velejar com ela
pelas enseadas da ilha
em maré baixa, ela fala:
“amizade sim, amor não”
e o mar batia furioso
no cais da desolação

Depois muito depois
o mar me disse:
“meu velho era teu destino
amar a sereia encantadora
e genitora do amor”

(Poema de Samuel Filho do livro inédito POÉTICA DO ANTIVÍRUS)


Nascimento Moraes

Combatente ambientalista de primeira hora, o poeta Nascimento Morais Filho legou-nos uma grande lição de idealismo pela causa ecológica do Maranhão e do país. No governo João Castelo, instalou-se na ilha de São Luís do Maranhão, início dos anos 80, a multinacional do alumínio ALUMATA, como gostava de chamar a Alcoa, que depois mudou o nome para Alumar. Assessorado tecnicamente pelo cientista Raul Ximenes, cassado como professor da USP pela ditadura militar de 1964, Nascimento Morais Filho funda o Comitê de Defesa da Ilha de São Luís e mobiliza a sociedade em pleno regime autoritário contra a besta fera internacional.

O Comitê mostrou, durante mais de 20 anos, os impactos nocivos da fábrica numa ilha, como a lama vermelha que penetra nos lençóis freáticos do golfão maranhense; o  fluoreto que polui a fauna e a flora; e as concessões fiscais absurdas com que o governo brinda a Alumata. E quais foram os benefícios? Somente a população teve prejuízos ambientais.

Como era previsto, a Alumata começaria a desacelerar suas atividades trinta anos depois. E, agora, demite em massa os metalúrgicos e é a principal responsável pela escassez  de água potável em uma cidade carente do abastecimento, dadas as condições geográficas de uma ilha.

A memória de Nascimento Morais Filho merece ser enaltecida para sempre. Sua obra poética e ambiental o coloca no panteon da glória maranhense. Ainda bem que a história de vida dele desmente o provérbio de que “ninguém é profeta em sua terra”. Por isso, o nome do poeta revolucionário (e não transgressor) tem que ser relembrado no presente e no futuro.

Publicamos o soneto EGO SUM QUI SUM de Nascimento Morais Filho ao seu pai, jornalista e escritor, que lutou contra a escravidão negra:

“Corre sangue de heróis nas minhas veias;
Descendo da nobreza dos gigantes;
As flamas das batalhas conservei-as,
Forjadas na bigorna dos atlantes!

Atenas – meu brasão! … e das cadeias
Olímpicas dos sonhos deslumbrantes,
As vertigens azuis arrebatei-as
aureolando-as com os raios dos levantes!

Legionário da glória, dos umbrais
Da luz dardejo coruscante astas
contra o furor dos vis iconoclastas!…

A ressoar as trompas aurorais
Formarei novos mundos dos escombros
– Carregarei os séculos nos ombros!…”


machado_de_assis123-2168834563f835137b2a521dc25c6563600cf01

Patriarca da literatura brasileira, Machado de Assis diz em crônica publicada em A SEMANA (1° volume) que Tiradentes não foi enforcado:

“ Este Tiradentes, se não toma cuidado em si, acaba inimigo público. Pessoa, cujo nome ignoro, escreveu esta semana algumas linhas com o fim de retificar a opinião que vingou, durante um longo século, acerca do grande mártir da Inconfidência. “Parece (diz o artigo no fim) parece injustiça dar-se tanta importância a Tiradentes, porque morreu logo, e não prestar a menor consideração aos que morreram de moléstias e misérias na costa d’África.” E logo em seguida chega a esta conclusão: “Não será possível imaginar que, se não fosse a indiscrição de Tiradentes, que causou o seu suplício, e o dos outros, que o empregaram, teria realidade o projeto?”

Daqui a espião de polícia é um passo. Com outro passo chega-se à prova de que nem ele mesmo morreu; o vice-rei mandou enforcar um furriel muito parecido com o alferes, e Tiradentes viveu até 1818 de uma pensão que lhe dava D. João VI. Morreu de um antraz, na antiga rua dos Latoeiros, entre as do Ouvidor e do Rosário, em uma loja de barbeiro, dentista e sangrador, que ali abriu em 1810,a conselho do próprio D. João, ainda príncipe regente, o qual lhe disse (formais palavras):

– Xavier, já que não podes ser alfares, toma por ofício o que fazias antes por curioso; vou mandar dar-te umas casas da rua dos Latoeiros…

– Oh! Meu senhor!

– Mas não digas quem és. Muda de nome, Xavier; chama-te Barbosa. Compreendes, não? O meu fim é criar a lenda de que tu é que foste o mártir e o herói da Inconfidência, e diminuir assim a glória de João Alves Maciel.

– Príncipe sereníssimo, não há dúvidas que esse é que foi o chefe da detestável conjuração.

– Bem sei, Barbosa, mas é do meu real agrado passá-lo ao segundo plano, para fazer crer que, apesar dos serviços que prestou, das qualidades que tinha e das cartas de Jefferson, pouco valeu, e que tu é que vales tudo. É um plano maquiavélico, para desmoralizar  a conjuração. Compreendes agora?

– Tudo, meu senhor.

– Assim é bem possível que, se algum dia, quiserem levantar um monumento à Inconfidência, vão buscar por símbolo o mártir, dando assim excessiva importância ao alferes indiscreto, que pôs tudo de pernas para o ar, e a pretexto de haver morrido logo. Não abanes a cabeça; tu não conheces os homens. Adeus; passa pela ucharia, que te dêem um caldo de vaca, e pede por Sua Real Majestade e por mim nas tuas orações. Consinto que também rezes pelo furreil. Como se chamava? Esquece-me sempre o nome.

– Marcolino

– Reza pelo Marcolino

– Ah! Senhor, os meus cruéis remorsos nunca terão fim!

– Barbosa, têm sempre fim os remorsos de um leal vassalo!

E assim ficará retificada a história, antes de 1904 ou 1905, Tiradentes será apeado do pedestal que lhe deu um sentimentalismo mofento, que se lembra de glorificar um homem só porque morreu logo, como se alguém não morresse sempre antes de outros, e, demais, enforcado, que é morte pronta. Quanto ao esquartejamento e exposição da cabeça, está provado empírica e cientificamente que cadáver não padece, e tanto faz cortar-lhe as pernas como dar-lhe umas calças. Mas ainda restará alguma cousa ao alferes; pode-se-lhe expedir a patente de capitão honorário. Se está no céu, e se os mártires formam lá em cima, pode comandar uma companhia. Antes isso que nada.”


Meu Twitter

Erro: o Twitter não respondeu. Por favor, aguarde alguns minutos e atualize esta página.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 1.112 outros seguidores