Blog de Samuel Filho

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O médico e músico Luiz Lobo lançou o CD LOOPCINICO com seus parceiros de banda. O disco tem um repertório bastante rico, combinando ritmos de bumba-meu-boi com outros como blue e jazz, entre outros.

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Menino, ficava olhando o retrato do Duque de Caxias, Herói Nacional e Patrono do Exército. Na foto, ele estava com uniforme branco, engalanado de medalhas. Caxias já era um homem de meia idade, cabelos grisalhos, corpo roliço e olhos azuis.

Esqueci-me de Caxias por muitos anos. Servi o Exército. Na caserna, soldado raso, reencontro-me com o Herói. Recordo-me até mesmo das comemorações do Dia do Soldado, quando toda a tropa prestou uma bombástica homenagem a Caxias. O comandante, um coronel de bigode e atarracado, falou sobre as altas virtudes de Luis Alves de Lima. Emocionei-me a ponto de ficar arrepiado e convenci-me de que Caxias era uma figura impoluta.

Perdi as contas dos plantões que tirei em frente á sua estátua. Eu estava com o fuzil, na posição de sentido, rendendo-lhe guarda. Na estátua, Caxias está montado num cavalo. Meu respeito por Caxias era tamanho que seria capaz de fuzilar alguém que lhe dirigisse uma ofensa, ali.

Deixei o Exercito. Ou o Exército me deixou ?  Esqueci-me novamente de Caxias. A luta pelo pão de cada dia é implacável. De uns tempos para cá, passei a me interessar outra vez por Caxias. Tudo começou quando tomei conhecimento de que o Herói fora, pelos idos de 1840, Presidente da Província do Maranhão e Comandante das Armas. O assunto me apaixonou de tal maneira que passei a ler tudo sobre Caxias que caísse às mãos.

Vim a saber que ele veio para o Maranhão com a missão de combater os rebeldes da Balaiada. E morreu muita gente do lado dos revoltosos. Aproximadamente 8 mil, entre escravos, camponeses e miseráveis.

As forças legais comandadas por Caxias eram militarmente mais preparadas do que as dos balaios. A Corte Real deu-lhe bastante dinheiro, armas e munições para dizimar um dos movimentos revolucionários que ameaçaram a unidade do Império.

Caxias agiu impiedosamente. Colocou na ilegalidade os partidos políticos dos conservadores e dos liberais. Estes chamados de bem-te-vis e aqueles de cabanos.

No interior, os balaios dominavam a situação. A então vila de Caxias, hoje cidade, foi tomada pelos sediciosos. Os chefes insurgentes, como o vaqueiro Raimundo Gomes e Francisco dos Anjos Ferreira (O Balaio), apresentaram uma pauta de reivindicações à Coroa para negociar o fim dos conflitos.

No entanto, prevaleceu a força. Com um ano, Caxias ganhou a guerra. Raimundo Gomes entregou-se ao Comandante das Armas, juntamente com 2.500 rebeldes, sob a promessa de anistia. O Balaio morreu em combate.

Mudei de opinião. Caxias não é mais meu Herói. Meu Herói é o negro Cosmo, que resistiu, ao lado de 3 mil negros aquilombados, à feroz repressão de Caxias. Foi preso, não traiu e enfrentou a força com a coragem dos heróis de sua raça.


Depois da cirurgia, Aldenor Filho ficou com a voz fanhosa. Arrancaram-lhe pelo lado esquerdo do pescoço um tumor maligno. A cicatriz  mostrava que a operação fora difícil e delicada. Sua voz mudou, ficou embolada, de modo que as palavras eram pronunciadas sem nitidez. Até recentemente, possuía uma voz potente e metálica. Seu amigo Pedro da Aparecida lhe falava, com ironia, que ele deveria ter seguido a profissão de locutor, porque tinha uma voz privilegiada. Agora, mesmo sem a bela voz, Aldenor Filho não ficava deprimido.

Apenas não gostava de uma coisa: que pessoas estranhas e até mesmo conhecidos perguntassem a ele as causas daquela cicatriz no pescoço e do falar com a língua enrolada, como se estivesse sendo enforcado.

Durante pouco tempo parou de fumar após a operação. Pedro da Aparecida pensou que Aldenor Filho fosse deixar o fumo. Que nada. A bebida e o fumo eram os seus companheiros inseparáveis. Era capaz de permanecer horas inteiras numa mesa de bar, sozinho, observando o cotidiano ou mergulhando em seus próprios pensamentos.Aboemia de Aldenor Filho era fenomenal. Poucas foram os dias de sua vida em que não bebeu pela noite adentro. Dividia o seu tempo entre a redação do jornal e os bares. E, à noite, a farra ia até o clarear da aurora.

Aldenor Filho consultou o relógio. Eram nove horas da noite. Lembrou-se dos esforços do seu pai para fazê-lo um brilhante advogado. Acabou sendo poeta, jornalista e boêmio. Amava essas coisas. Essa era a sua própria vocação. Tomou um gole de cerveja e tragou o cigarro com prazer. Pegou o telefone público instalado no bar e ligou para Pedro da Aparecida. Queria que este ficasse em companhia dele no botequim. Pedro da Aparecida disse que ia encontrá-lo.

Sentado, Aldenor Filho revelava tranquilidade, aparentando uma estátua. Tirou os óculos de míope, limpou-os com o lenço e os olhos fechados, colocando-os no rosto em seguida. Magro, cabelos pretos e fartos, era o tipo é do intelectual.

Não demorou muito, Pedro da aparecida surgiu na porta do bar, com os passos lentos, mãos nos bolsos.  “ Como estão as coisas?” Perguntou Pedro da Aparecida.

“Bem”, respondeu Aldenor Filho, jogando o cigarro fora.

“Já estás fumando?”

“Não aguentei. Sou amante do fumo”.

“Tudo é  uma questão de cabeça. Eu deixei de fumar por um problema estético”.

“Ah, esses negócio de estética nunca entrou em minha mente. Fumo por necessidade”.

Os dois ficaram silenciosos. Aldenor Filho pediu mais uma cerveja. Curtido pelo álcool, experimentava uma suave euforia provocada pela cerveja, sem ficar embriagado. Pedro da Aparecida bebia devagar e moderadamente.  É verdade que às vezes embriagava-se e aí exaltava-se e ficava eufórico. Bebia nos fins de semana e não diariamente como Aldenor Filho.

“Acabei de escrever um romance”, disse Aldenor Filho

“Foi mesmo?” Indagou admirado Pedro da Aparecida.

“A história gira em torno de um comerciário que sonha tornar-se capitalista”.

“Bom tema. Original até”.

“Pelo menos, não li nada igual. Pode até ser que exista”.

“Rapaz, tu escreveste muito rápido, porque há um mês não falaste nada sobre o livro”. Pedro da Aparecida coçou a barba branca com seu ar místico.

“Escrevi o romance em 15 dias. Também não sai da máquina enquanto não terminei”. Aldenor Filho bebia e fumava incessantemente.

“Eu já sou diferente. Escrevo devagar, sem pressa”.e

“E, cada pessoa escreve de acordo com a sua própria índole e as circunstâncias. Aprendi a escrever rápido. Trata-se de um ritmo que o jornalismo nos  impõe. Quando estamos trabalhando num jornal, a gente tem que escrever depressa, para que o leitor compre o jornal de hoje nas bancas”.

“O jornalismo é uma escola importante para o escritor. Não passei por ela. Comecei direto em minha arte. Gostaria de ler o teu romance antes de publicado”.

Saíram. Aldenor Filho andava devagar e apoiado no ombro de Pedro da Aparecida. Na meia idade parecia um velhinho. Estava muito diferente de há dez anos atrás, quando caminhava rápido pelas ruas como se estivesse atrás de um furo de reportagem.

Despediu-se de Pedro da Aparecida e entrou em casa. A sua mulher, dona Marlene, nascera para Aldenor Filho. Trabalhava nos afazeres domésticos da manhã à noite para servir ao marido e aos filhos. Na hora do almoço, colocava os pratos na mesa e chamava com ternura Aldenor Filho e os garotos. A cabeceira da mesa era reservada para ele.  Para Aldenor Filho nada faltava. Limitava-se a olhar, vagamente, para as pessoas e as coisas, como se encontrasse em um mundo à parte. Comia pouco demonstrando fastio. Somente não dispensava o suco de laranja. Este era bebido com gosto. Já os meninos almoçavam com apetite e ainda pediam mais. Dona Marlene falava, pacientemente, que se devia comer para viver e não viver para comer.

Aldenor Filho dormia pouco. Dizia para os colegas de farra que teria muito tempo para dormir depois da morte. Por isso, suportou noites e dias trabalhando e bebendo, sem repouso. Ultimamente, escrevia as matérias para o jornal em casa, onde passava a maior parte do tempo. Apesar de debilitado, redigia com rapidez impressionante, mostrando uma velocidade na máquina de escrever de fazer inveja. Se não tinha mais vigor nas pernas, continuava lúcido e com raciocínio ágil. Na cidade, a sua competência profissional virou fama e mito. Suas crônicas e reportagens eram páginas admiráveis da imprensa.

Ele acordou com diarreia. Era uma coisa rotineira no seu dia-a-dia. “A cerveja é uma bebida diarreica”, afirmava. Às vezes, ia ao banheiro até cinco vezes. Tomava alguns compromidos. Aí sentia alívio.

Estava preocupado com a festa de quinze anos de sua filha Berenice. Iria tentar fazer uma comemoração mesmo simples em sua casa. Telefonou para amigos influentes para conseguir bebidas e salgadinhos. Dirigiu convites para pessoas de sua estima e intimidade.

No dia do aniversário amanheceu até mais disposto, chegando a pensar que iria melhorar de saúde. Levantou-se da cama sem dificuldade, caminhando mais firme. Dona Marlene observou com seus olhos azuis e piedosos a disposição de Aldenor Filho e ficou contente.

A partir das oito horas da noite começaram a chegar os convidados. Pedro da Aparecida, a mulher, os filhos e outros amigos foram os primeiros a aparecer. A casa de Aldenor Filho tinha um terraço, onde foram colocadas a mesas e cadeiras. Garçons vestidos de branco e preto serviam os convidados. A aniversariante foi apresentada pelo pai a cada um dos presentes. Nos seus quinze anos, ela exibia os contornos de futura mulher. Era branca, loura e de olhos azuis, como a mãe.

Pedro da Aparecida conversava em uma mesa com gestos calmos. Aldenor Filho andava de mesa em mesa, falando com as pessoas. Sua maneira de andar, até lépida, recordava os velhos tempos, chegando a surpreender a Pedro da Aparecida, que disse em seu ouvido:

“Você hoje está novinho. Tomou algum elixir da longa vida?”

“É a juventude da minha filha que me contagiou”, respondeu sorrindo.

“Vamos ver se a gente chega até o final do século”, falou Pedro da Aparecida.

“Isso eu não te prometo”, disse Aldenor Filho, afastando-se para atender a um chamado de dona Marlene.

Os convidados tiveram a atenção voltada para o anúncio de que chegara  o momento do pai dançar a valsa com a filha. Todos ficaram concentrados na valsa que começou a tocar. Aldenor Filho e a filha dançaram com desenvoltura na sala iluminada, arrebatando aplausos dos convidados. Ele dançou sa tisfeito e emocionado.

Nessa noite, após a festa, Aldenor Filho roncou tanto que incomodou a mulher a seu lado na cama. Despertou cedo e sentiu vontade de beber uma dose de vodka. Durante a festa, tomara apenas um cálice de champanhe para brindar os 15 anos da filha, depois de apagadas as velinhas e cantar o “Parabéns pra você”.

Escovou os dentes amarelecidos pela nicotina do fumo. Saiu em direção ao botequim mais próximo. Encontrou um aberto e pediu um conhaque, porque não havia a vodka que queria. Bebeu em jejum quatro doses, fumando um cigarro atrás do outro. Tossiu muito devido a uma antiga bronquite.

Ali, anestesiado pelo álcool, Aldenor Filho sentiu saudades dos anos passados, quando, com saúde, amanhecia bebendo em companhia de outros boêmios e de mulheres. Achava bela a boemia. As imagens do passado surgiam à sua frente como se estivesse sido transportado para aquele tempo.

Voltou para casa sentindo um mal estar. As pernas tremiam e uma fraqueza tomava conta do seu corpo. Com muito esforço, conseguiu chegar ao portão, segurando-se nele para não cair. Dona Marlene, que estava no terraço, veio socorrê-lo, rebocando Aldenor Filho no ombro até o quarto. Ele estava pálido e suava. A testa e os pulsos gelados.

Dona Marlene ficou preocupada com  o marido. Telefonou para o médico que cuidava dos problemas de saúde de Aldenor Filho. Ela foi aconselhada a interna-lo num hospital.

Pedro da Aparecida estava tranquilo em casa lendo um romance quando foi informado de que Aldenor Filho tinha sido hospitalizado. Dona Marlene deu-lhe o número do apartamento da casa de saúde em que se encontrava o marido. Pedro da Aparecida anotou com atenção e disse que iria vê-lo no sábado.

Segundo o médico, era grave o estado de saúde de Aldenor Filho. Não falava mais, apenas gesticulava. Alimentava-se com soro. Dona Marlene não se afastava um minuto sequer do leito do doente. Sua dedicação era total. Ajeitava a cabeça do marido na cama. Acompanhava as aplicações dos médicos. Não dormia. Cochilava.

Sábado. Pedro da Aparecida esperava chegar a tarde para visitar o amigo no hospital. Sentado na poltrona da sala em casa, ligou a televisão para assistir ao noticiário. Distraído, acariciava um gatinho deitado ao seu lado. O apresentador do telejornal deu a notícia com muita ênfase:
“Morreu hoje o jornalista Aldenor Filho. O sepultamento vai ocorrer logo mais às 16 horas no Cemitério São João Batista.  Aldenor Filho tinha quarenta anos e morreu em consequência de cirrose hepática”.


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Capitulo XIII

A madrugada estava fria. Em janeiro o inverno começa a se anunciar na ilha de São Luís. Já caíra duas chuvas torrenciais, devolvendo ao homem a esperança de que não havia seca. Antes de chover, comentava-se que as plantações e o gado estavam morrendo. O medo da seca foi dissipado com a chegada do inverno.

Domingos fumava um cigarro de palha. Pela última vez, olhava para o quarto que dividira com Rosa. As dores da recordação aceleravam a batida do coração. Percorreu todo o quarto, despedindo-se para sempre.

O cavalo Tróia relinchava na estrebaria, como que adivinhasse a partida do escravo. Domingos foi até Tróia. Este ficou contente ao ser alisado no pescoço. Tróia balançou o longo rabo de contentamento. Domingos passava as mãos no lombo de Tróia, no pescoço e no focinho.

O galo cantava avisando que ainda era hora de negar.

A aurora surgiu com sua cor rósea. Nascia um novo dia. Domingos contemplou o nascente com o colorido mágico e misterioso. A lua ainda projetada do lado oposto seu disco branco, cansada de iluminar a noite.

O mar rugia como se estivesse enfurecido. Ouvia-se o barulho do mar àquela hora. Vozes humanas vinham da praia. Domingos constatou que era chegado o momento de partir.

-Adeus, Tróia. Boa sorte. Eu vou pro quilombo.

Domingos saiu de casa sem ser percebido.

Dona Bernadina, que acordava cedo, foi  à  cozinha preparar o café. Nesses momentos sentia falta de Rosa. Nunca mais tivera descanso. De manhã à noite era uma labuta incessante.

Depois, foi ao quarto de Domingos pedir para ele fazer as comprar do mercado. Dona Bernadina deteve-se ao não ver ninguém. E chamou:

-Domingos, Domingo, Domingos…

Silêncio. Somente o eco da voz de dona Bernadina respondia. Ela chamou novamente. Nada. Foi ao quintal, não encontrou Domingos. Só o cavalo Tróia dava sinal de vida, relinchando. Dona Bernadina esqueceu por  um instante Domingos, ao se espantar com a queda de uma manga no chão. A manga era amarela e arredondada. Dona Bernadina apanhou a manga. Veio-lhe a suspeita de que Domingos fugira para o quilombo. Ela chegou a ouvir Domingos dizendo para Rosa que lá era bom e não era escravo  de  ninguém.

Dona Bernadina retornou para dentro de casa desorientada. Para ela, a situação se complicava com a fuga de Domingos. Considerou-o um ingrato, pois fugira no momento em que mais precisava dele. Agora, concordava com algumas coisas do coronel. Mas, entregou tudo ao julgamento de Deus. Deus era o bálsamo espiritual nos instantes de aflição.

-Seja feita a Vossa vontade, murmurou.

Ela começou a martelar a cabeça, fazendo suposições sobre o desaparecimento de Domingos. Não mandara ele ir cedo para qualquer lugar. Não tinha dúvida de que o negro fora embora.  Lembrou-se das constantes advertências do coronel de que escravo não prestava, e que por isso não devia ser tratado como gente. Se contasse ao coronel, iria ser um dramalhão. Ela seria acusada pelo coronel de responsável pela fuga de Domingos.

Dona Bernadina procurou colocar as ideias em ordem. Era necessário dar um tempo. Fez uma prece rápida para que Deus protegesse o seu lar, sacudido ultimamente por tantos acontecimentos ruins.

Ao chegar à copa,  dona Bernadina encontrou o coronel e Manuelzinho sentados, esperando-a para tomarem café. Dona Bernadina serviu-os. O coronel comia o bolo de tapioca com apetite. Dona Bernadina disse que o marido não podia comer muito. Não deveria passar por cima da dieta. No dia anterior havia se excedido no almoço e no jantar, comendo como se estivesse em plena mocidade.

-Ah, Bernadina, não vou morrer de fome.

-Montenegro, tem que comer moderadamente.

-É por falta de boa alimentação que venho ficando fraco. – O coronel falou chateado.

-Dieta é assim mesmo, disse dona Bernadina.

O coronel estava com olheiras, que mostravam vir ele dormindo mal. Magro, nem parecia aquele homem forte e disposto de outrora. Até as mãos tremiam.

Dona Bernadina pensava na fuga de Domingos. Mais um quebra cabeça para seu dia a dia. Tinha urgentemente que comprar pelo menos uma escrava. O dinheiro do coronel não dava para comprar dois. Uma escrava daria para ajudá-la em casa. Ouviu uns passos vindos do quintal. Virou-se para ver. Não era nada. Àquela hora,  Domingos deveria estar longe. Não tinha a mínima ideia para que lado ficava o quilombo. Uma vez disseram-lhe que havia um na baixada maranhense, nas imediações de Guimarães. Dona Bernadina procurava imaginar como era a vida dos negros no quilombo. Como viveriam? Era melhor que serem escravos nas casas dos fidalgos? Tinha conhecimento de que o governo mandava de tempos em tempos forcas militares atacarem os quilombos, destruindo-os a ferro e fogo. Isso sempre ocorria quando os quilombos começavam a se expandir, ameaçando a vida dos donos de fazenda.

Foi arrebatada dos seus pensamentos ao notar que tinha de fazer compras em lugar de Domingos. O coronel levantou-se e foi  apoiando –se  na bengala para sentar-se na preguiçosa. Manuelzinho saiu para brincar. Dona Bernadina tirou da mesa as louças e limpou a toalha com um espanador. Viu que o chão estava sujo por falta de varrição.  A limpeza da casa era importante, mas agora tinha que tratar das coisas mais imediatas como ir ao mercado e fazer a comida.

O coronel  batia com a bengala no chão, cismando. Traçava um triângulo com a bengala. Dona Bernadina aproximou-se dele:

-Montenegro, eu vou fazer umas compras no mercado.

-Como? – O coronel precisava de uns dias para cá que se repetisse o que estava falando para ele.

-Vou ao mercado fazer compra, repetiu dona Bernadina.

-Eu vou ficar sozinho?

-É o jeito.

-Por que não manda o negro Domingos?

-Ele não sabe fazer as compras que eu quero. Não se preocupe que eu volto logo.

-Não demora, por favor.

Dona Bernadina sentiu uma tremedeira nas pernas ao se referir a Domingos para o coronel como se o escravo estivesse em casa. Aliás, nem sabia direito se o negro tinha ou não fugido. Ocorreu-lhe a ideia de que domingos tivesse ido ao cemitério visitar a sepultura de Rosa. No sétimo dia de morte de Rosa, Domingos fora ao cemitério, ao cair da tarde, levando flores e velas. Não tinha certeza se o negro estava para o cemitério. Logo tão cedo, era uma visita esquisita. De qualquer maneira era bom silenciar para evitar transtorno ao coronel.

-Vem logo, disse o coronel com a voz débil.

-Não demoro, respondeu dona Bernadina, saindo.

O coronel cismou com a bengala na mão. Sentiu falta da presença do comandante Venâncio, que estava há dias sem aparecer. Até que o comandante tinha uma boa conversa e era uma pessoa gentil. Visitava-lhe constantemente depois que adoecera. Talvez, uma das  poucas pessoas com quem poderia contar em momentos difíceis.

A cabeça doeu. O coronel incomodou-se com umas pontadas na nuca. De vez por outra essa dor lhe aparecia. Esfregou a cabeça para passar a dor. A cabeça esquentava.

O coronel recordou-se do dia em que chegara a São Luís em um navio procedente do Rio. Foi uma viagem que durou muitos dias. Só houve um contratempo ao desabar um temporal em pleno mar. As águas violentas do oceano subiam, molhando o convés do navio, que em certo momento parecia que ia naufragar. Como tinha feito outras viagens de navio, já sabia que era cheia de imprevistos. Ao avistar a ilha de São Luís,  levantou-se curioso para ver como era a cidade. O mar estava calmo e se estendia infinitamente. Achou a cidade pobre, se comparada com o Rio ou Lisboa. O comandante do navio, um português atarracado e de bigode, reclamou do porto de São Luís, que era ruim para os navios atracarem.

Sentiu mais uma fisgada na nuca. Doía intensamente. O corpo estava paralisando de um lado. Sentiu medo. Dona Bernadina não estava ali para socorrê-lo. Quis levantar-se para andar um pouco. Podia ser que melhorasse. Não pôde. Sentiu um calor como se algo fosse estourar por dentro.

Manuelzinho brincava sem suspeitar que o pai passava mal. O coronel pensou em chamar o menino para junto de si. Manuelzinho não podia fazer coisa alguma. Deu razão a dona Bernadina que de manhã cedo o advertira que comera muito no dia anterior, quebrando a dieta recomendada pelo médico.
O cérebro do coronel era um caos. Desfilaram em sua retina as figuras de Tiradentes, dona Bernadina, do comandante Venâncio e dos escravos Domingos e Rosa. Até as sesmarias povoavam-lhe a mente agonizante.

A boca ficou torta. O coronel arquejou sentindo um peso no braço esquerdo. A respiração ficava cada vez mais difícil. Ele procurava ar e não mais respirava livremente. Ergueu-se num ultimo esforço de sobrevivência. Caiu na preguiçosa com os olhos arregalados e a língua com a ponta para fora.

Da varanda, onde o coronel pendia sem vida, via-se o céu claro. Numa árvore do quintal, um pássaro cantava esperança para o mundo, apesar da traição.


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Capitulo XII

Dona Bernadina providenciou o sepultamento de Rosa como merecia uma escrava de estimação. Domingos ficou inconsolável. Chorou ao pé da sepultura ao olhar pela última vez Rosa na rede com o rosto calmo e sereno de quem tinha se libertado da escravidão. Domingos tremeu de emoção quando o coveiro lançou as primeiras pás de barro sobre o cadáver de Rosa.

O cemitério era simples como os outros destinados aos negros, revoltosos, pobres e suicidas. Os fidalgos eram sepultados nas igrejas. Próximo à sepultura de rosa, enfileiravam-se cruzes umas atrás das outras. O mato cobria muitas delas. Havia algumas coroas de flores e restos de velas em torno das sepulturas.

De volta ao cemitério, Domingos ainda enxugava as lágrimas nas mangas da camisa de algodão de cor branca, uma das poucas roupas que tinha para vestir nessas circunstâncias. Os olhos estavam vermelhos de ter passado a noite em claro no velório de Rosa no hospital.

Domingos tropeçava de comoção. Andava instintivamente como se ao seu redor não existisse nada. A velha idéia de fugir para o quilombo reapareceu em sua alma angustiada. Domingos decidiu fugir depois do sétimo dia da morte de Rosa.

Entrou em casa com passadas leves. Sentiu a tristeza aumentar em seu coração. Ao penetrar no quarto em que viveu tantos anos com Rosa, a tristeza foi maior. Quase desmaiava. Tudo ali lembrava Rosa: as roupas deles guardadas com cuidado numa mala de madeira, um par de chinelos num canto e o banco que ela gostava de sentar-se nas horas de descanso. E a rede que servira de leito para o amor de ambos. O quarto cheirava a Rosa. Num momento, chegou a ouvir seus passos. Domingos chorou, ao perceber que era pura ilusão.

Dona Bernadina apareceu.

-Domingos, te acalma. A vida é assim mesmo. Seja feita a vontade de Deus. Reza que o sofrimento passa.

-É difícil, dona Bernadina, soluçou Domingos.

-Orar é a única forma de se livrar do sofrimento. O desespero não resolve nada. Eu também estou sentindo a morte de rosa. Ela me ajudou muito. Deus a tenha em um bom lugar.

-Para mim, o mundo acabou. – Domingos soluçava.

-Que nada, Domingos, você ainda é novo. Vai tomar um pouco de café na cozinha. Vou ver como está o Montenegro.

O coronel pensava num sonho que tivera dizendo alguma coisa.

-Estava me lembrando de um sonho. –O coronel gesticulou com a mão.

-Que sonho foi?

-Uma coisa meio estranha. Tem sonho que prefiro não ter.

-Foi bom ou ruim, insistiu dona Bernadina.

-Nenhuma  das duas.

-Não queres contar é até melhor.

-Talvez seja. Sonhar com Tiradentes não é uma boa coisa.

-Como foi? – Dona Bernadina indagou curiosa.

-Eu ia passando por uma Rua de Vila Rica e ele estava distribuindo barras de ouro para os pobres.

-Dizem que sonhar com ouro é coisa ruim que vem por aí.

-Doente como ando, não tem mais nada de ruim. Só quero que essa doença desapareça de uma vez ou então me despache para o além. – O coronel falava com o semblante de revolta.

O coronel espantou-se como se estivesse sendo perseguido. Dona Bernadina notou e perguntou:

-O que foi Montenegro? Você se espantou.

-É. De vez em quando tenho isso. Desde que sofri um atentado no Rio fiquei assim. Tudo isso é marca do que sofri por causa da Coroa. E ainda fui jogado fora como se fosse um lixo.

-Te acalma, Montenegro. Procura esquecer o que passou. –Dona Bernadina faz um carinho no marido.

-Bernadina, parece que quando o azar bate na porta da gente vem arrasando tudo. Fiquei doente. A negra Rosa morreu. Que o diabo a guarde entre os dele. Quero saber o que vem mais de ruim por aí.

-Não vem mais nada. Deus nos protege.

Dona Bernadina lembrou-se do pai. Era também um homem colérico como o coronel. Tinha pavio curto, como diz o adágio popular. Achava-os parecidos. Dona Bernadina foi tirada de sua recordação com os gritos de Manuelzinho.

-Meu filho, você está  tão grande para andar  caindo, comentou dona Bernadina um pouco assustada.

Ela foi buscar água para o garoto. Manuelzinho bebeu e sossegou-se. Dona Bernadina retomou a conversa com o coronel.

-Montenegro vamos ter que comprar outra escrava para substituir a Rosa.

-Com essa doença não tenho condições de comprar nada, disse o coronel enfastiado.

-Eu compro em teu lugar.

-Tu não sabes comprar escravo, Bernadina.

-Você me ensina como é e eu vou. – Dona Bernadina procurava contornar o impasse colocado pelo coronel.

-Primeiro você tem que examinar os dentes dos negros. Depois, olha o corpo inteiro. Tem que ser um negro novo e forte. Não comprar escravo velho, por favor.

-Temos que fazer isso urgente, Montenegro. Sozinha não vou suportar o trabalho de casa.

-Vamos esperar sair o dinheiro do quartel.

A noite surgia. As estrelas começavam a brilhar no espaço, com suas luzes cintilantes. A luz mostrava-se somente pela metade. O vento trouxe os acordes de um violão que tocava uma modinha nas proximidades.

Dona Bernadina acendeu os lampiões da casa. Havia  um na varanda. Outros na copa. O coronel pediu sopa, dizendo que não agüentava mais tanta fome.

Dona Brnadina teve vontade de ir rezar na igreja, onde estava havendo oração de noite pelas vítimas de varíola. Os sinos tocavam chamando os fiéis. No entanto, dona Bernadina não podia ir devido à doença do coronel. Tinha que se contentar em orar em casa. Conformava-se porque tudo atribuía aos desígnios divinos.

Como a noite estava fria, o coronel recolheu-se antes da hora habitual para o quarto de dormir. Antes de deitar-se rezou e mijou. Mijava várias vezes à noite. Chegava a mijar no pijama. O médico lhe falara uma vez que era problema de bexiga que aparece com a idade.

Dona Bernadina dormia profundamente. Casada do excesso de trabalho, não se acordava muito à noite. Não obstante a idade, ainda guardava alguns contornos da mocidade, vestida na camisola de dormir.

Manuelzinho falava dormindo. Sonhava com seus brinquedos e com a figura terna da mãe. O menino mexeu-se na cama. Gritou por dona Bernadina:

-Mamãe.

-Que é Menuelzinho? – Dona Bernadina despertou atordoada.

-Não quero mais dormir aqui.

-Por quê? Meu filho todo dia dorme aí.

-Eu vi um homem me olhando.

-Manuelzinho, aí não tem homem nenhum. É impressão tua.

O garoto levantou-se e caiu nos braços de dona Bernadina. Ela beijou-lhe, pedindo para dormir, porque o pai não devia ser acordado. Manuelzinho veio a dormir novamente. Dona Bernadina apurou os ouvidos para ver se tudo estava normal dentro de casa e depois voltou a adormecer.


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Capitulo XI

Dona Bernadina estava indecisa se comunicava ou não ao coronel o internamento de Rosa. Ela sabia que mais cedo ou mais tarde, ele ia dar pela falta da escrava. O receio de dona Bernadina era o de que o coronel poderia ter a saúde agravada com a notícia. Por outro lado, se não lhe dissesse, o coronel iria notar a ausência de Rosa, reclamar dela que estaria escondendo as ocorrências de Casa. Mordendo os lábios pálidos, dona Bernadina resolveu falar:

-Montenegro, eu internei a Rosa.

-Quando? Indagou o coronel com espanto.

-Hoje, quando você fazia a sesta. Ela está com varíola.

-Será que nós estamos contaminados?

-Deus há de nos proteger.

-E o negro Domingos que estava amasiado com ela não está com a peste também? – O coronel franziu a testa.

-Até o momento, não.

-É bom isolar ele também no hospital.

-Não, Montenegro, o Domingos está com saúde.

-Bernadina é devido a tua bondade que tu vais botar tudo a perder. Se essa varíola pegar na gente a culpa é tua.

-Se o Domingos apresentar qualquer sintoma da doença, a gente interna ele. No hospital não tem só escravos internados. Há fidalgos também.

-Olha aí, e você ainda está brincando. Vir para o Maranhão para morrer de varíola é uma condenação do demônio.

-Da maneira que você está pensando até o governador pode pegar varíola, disse dona Bernadina.

-Esse governador já é leproso. Cheio de sarna. Para ele pegar varíola é rápido.

-Coitado, ele é tão bom. Não mexe com ninguém. – Dona Bernadina abanou-se para diminuir o calor.

-Ele é bom para a panelinha dele. Para mim não deu nada. Qualquer hora dessa, eu faço uma carta para a Corte, contando toda a safadeza do governo dele, ameaçou o coronel quase gritando.

-Montenegro, você ainda quer entrar em política, depois de tudo o que aconteceu?

-Isso não é política. É apenas vingança. Você está muito iludida com ele. O Curuba só tem a aparência de gente que presta, com aquela cara de santo. Não vale uma pataca.

Dona Bernadina virou-se para o lugar em que Manuelzinho brincava solitáro. Ela disse ao coronel que estava com medo do filho contrair a varíola, já que estava sendo muito benevolente com os escravos.

-Você não se importou quando devia. Deixou que a negra Rosa permanecesse muito tempo doente em casa. Esse negro Domingos deve estar também contaminado.

-Ainda não, afirmou dona Bernadina.

-Como você sabe?

-Ele está  forte e disposto. Não sente nada.

-A Rosa também estava com saúde. De repente, apareceu cheia de feridas. Parece que estou com diarréia. – O coronel bateu na barriga.

-De novo, Montenegro?

-Agora é de velho.

O coronel apoiou-se na bengala e levantou-se, segurando no ombro de dona Bernadina. Pediu o vaso. Dona Bernadina disse que estava no banheiro.

-Tem papel?

-Tem tudo lá.

– Já caguei na calça, gritou o coronel.

-Aguenta um pouco, Montenegro.

-Está fedendo mesmo. – Dona Bernadina tapou o nariz com a mão.

-Mentira. Minha merda não fede.

-Não fede? Está podre.

-Ele passou mais de quinze minutos no banheiro,  com dor de barriga. Suou frio. – O coronel limpou-se e dona Bernadina trouxe-lhe cueca e um pijama limpos.

-Mamãe, estão batendo. É gente.

-Já vou meu filho.

Era o comandante Venâncio. Trajava roupa de passeio. A bota rangia. Apertou a mão de dona Bernadina, numa saudação cordial.

-Como vai o coronel?

-Daquele jeito. Fraco. Ele está na varanda.

-Força, coronel, disse o comandante, cumprimentando-o

-É o que está me faltando, respondeu o coronel mostrando-se cansado.

-Sente nessa cadeira, comandante. – Dona Bernadina apontou com o indicador.

O comandante puxou a cadeira um pouco para trás.

-Está um inferno, comandante. A negra daqui está interna com varíola. O negro deve estar perto de ficar com essa peste também. – O coronel mostrava-se amargurado.

-A varíola está atacando muitas pessoas. Lá, no quartel, houve mais dois casos de soldados com varíola. Mandei imediatamente para o isolamento do hospital. A Corte Real tem enviado remédios. O governador me falou que Dom João VI vem ajudando o Maranhão a combater a varíola.

-Para mim, a Corte não fez nada. São uns ingratos. No entanto, eu prestei um grande serviço à Coroa, denunciando os inconfidentes. – O coronel falava com ressentimento.

-Coronel, você só  pensa em si, disse o comandante em tom de brincadeira. O Brasil vai ser sede do Reino Unido. Pode acreditar.

-O Brasil não tem condições para isso. É sonho de louco.

-Você acha?

-Acho. É um país de índios e negros. Ai do Brasil se não fosse Portugal. O Brasil deve tudo aos portugueses.

Rindo com os dentes felinos, o comandante fitava o coronel, vendo à sua frente um homem que estava morrendo aos poucos. Dona Bernadina andava da varanda para a copa, cuidando do serviço de casa.

-Coronel, qualquer hora dessa eu venho lhe buscar para um passeio pela cidade.

-Com essa peste de varíola eu não saio nem na porta. Muito obrigado, comandante.

-Dessa vez, a coisa não está tão feia. Foi um pequeno surto. Dentro de poucos meses será debelado pelo governo.

-Comandante todo cuidado é pouco. Com esse governador que está aí, não se pode confiar. É um mole, sem pulso.

-Concordo em parte. O governador Paulo José da Silva Gama é uma pessoa pacata. Por isso, parece sem coragem. Mas, não persegue seus opositores como os outros governadores.

-Não persegue? Todos eles são perseguidores. A única coisa certa que ele fez foi proibir brasileiro de integrar o Senado da Câmara. – O coronel estava exaltado.

-A melhor obra dele para mim foi ter instalado o Tribunal da Relação.

-Foi uma besteira. Vai arranjar inimigos com esse tribunal. – O coronel cerrou os punhos.

-Coronel, eu quero lhe dizer que o governador muito lhe preza, disse o comandante.

-Também pudera. Eu sozinho destruir uma revolta contra a Coroa. Se não fosse eu, ele não estaria mandando nessa província hoje. Talvez, nem Portugal existisse no mapa. E Portugal ainda existe, graças aos ingleses. Aliás, comandante, eu deveria ter nascido inglês, que é um povo ousado e guerreiro.

O coronel falava como se estivesse recuperando a sua antiga energia. Ficou até vermelho de tão empolgado.

-Coronel, por que você não gosta do governador? – O comandante perguntou em tom confidencial.

-É metido a sério, mas por baixo dos panos protege os seus apaniguados. Nunca se lembrou de me dar nada. Dá sesmarias para os amigos e não se lembra de mim.

-Tenha paciência, coronel. Ocorre que o governador que agir de acordo com as cartas régias. Há pouco tempo foi baixada uma carta régia restringindo a concessão de sesmarias.

-Na minha idade não se tem mais paciência. Nem sei se estarei mais vivo amanhã.


joaquim_09

Capitulo X

O coronel não se cansava de reclamar de sua fraqueza. Queria um remédio que lhe restituísse a saúde. Ao saber que Rosa estava doente, irrompeu incontrolável:

-Leva essa negra para o isolamento. Aqui, ela não fica. Deve estar com varíola. Manda, manda, manda…

-Vamos aguardar um pouco Montenegro. A Rosa está com febre. Dona Bernadina tentava tranquilizar o marido.

-Com febre? Você ainda tem dúvida?

-Febre todos nós temos. Quando estamos gripados ás vezes dá febre.

-Com essa epidemia todo caso de febre é suspeito.

-Amanhã a gente sabe se é varíola.

-Ainda esperar até amanhã. Até lá estaremos contaminados. Não quero morrer de graça. Tenho ainda muitos planos a realizar na vida. – O coronel segurou no braço da cadeira.

-Montenegro o que te adoece é essa irritação. Procura te acalmar.

-Mais tranquilo do que estou só depois de morto. – O coronel falava com a voz rouca.

-Onde está o Manuelzinho?

-Sei lá.

-Deve estar brincando na sala de visitas. – Dona Bernadina se apressou atrás do menino. Manuelzinho, meu filho, venha cá.

-Já vou mamãe.

-Está bem, continue brincando.

Manuelzinho mergulhou novamente em suas quimeras. Dona Bernadina olhou-o e compreendeu o entretenimento do garoto, dizendo para si mesma: “Como é bela a infância”. Ela foi à cozinha. Sentiu um ligeiro cansaço. Sentou-se. Percebeu que estava com um início de estafa de tanto cuidar do coronel. Além disso, o trabalho doméstico aumentara com a doença de Rosa. Tinha também o Manuelzinho para dar atenção.

-Bernadina, vem cá. – Era o coronel chamando-a.

-Que é Montenegro?

-Vou caminhar um pouco pelo quintal.

-Cuidado, você está fraco.

-Tenho que andar se não vou ficar paralítico.

Devagar, o coronel se dirigiu ao quintal, segurando-se nas paredes. Dona Bernadina segui-o. Ela notou que o marido tinha emagrecido bastante. A calça estaca frouxa.

-Vamos Montenegro, firmeza.

-Não. Desisto. – O coronel tremia de fraqueza.

-Cansou, Montenegro? Então para e senta. – Dona Bernadina o segurou com medo dele Caír.

Erguendo o pescoço para o teto da casa, o coronel apontou para um cupim que tomava conta da ripa. E pediu que dona Bernadina mandasse o Domingos destruir o cupim com fogo. Ela sacudiu a cabeça afirmativamente. O coronel voltou para a sua cadeira de embalo, arrastando-se como um inválido.

-Bernadina, compra uma bengala para mim. Não estou mais andando direito.

-Que tipo de bengala?

-Uma que seja de boa qualidade.

-Tem que mandar fazer é melhor.

-Não, no comércio tem bengalas de luxo feitas em Portugal.

-Vou procurar. Espera aí que vou ver como está Rosa.

-Não demora. Você está mimando demais essa negra.

-Ela está doente, Montenegro.

-Por mim, ela pode até morrer.

-Ah, Montenegro, desabafou dona Bernadina.

-De doente já basta eu.

Dona Bernadina encontrou Rosa com o rosto coberto com um pano. Domingos estava ao lado da companheira com o aspecto abatido e tristonho.

-Como está Rosa, perguntou dona Bernadina.

Rosa gemeu na rede.

-Não tá boa. Tá pior, disse Domingos. -Só faz gemer. Aparecem nela umas feridas.

-Deixa eu ver, Rosa, pediu dona Bernadina.

Rosa ergueu-se e tirou o pano. As faces dela estavam purulentas. Dona Bernadina achou que tudo levava a crer que se tratava de varíola como indicavam os sintomas. Por isso, tinha que levá-la para o isolamento do hospital.

-Não dona Bernadina, deixa ela aqui mesmo, implorou Domingos.

-Não pode, Domingos. Se ela ficar aqui, vai contaminar a gente.

Rosa choramingava e gemia. Domingos abraçou-se a ela. Dona Bernadina se emocionou ao ver Rosa com as pústulas e com a barriga grande.

-Domingos, não te abraça assim com a Rosa, porque tu podes pegar a mesma doença, advertiu dona Bernadina.

-Pra mim tanto faz. –Domingos agarrava-se cada vez mais a Rosa.

Tensa, dona Bernadina ficou paralisada por alguns minutos sem coordenar as ideias. Indecisa, não queria dizer ao coronel que Rosa estava com varíola. Notou que o marido cochilava, roncando. Aproveitou o cochilo do coronel para levar Rosa ao hospital.

Domingos, Rosa e dona Bernadina pegaram uma carruagem de aluguel na porta de casa. Domingos perguntou quanto tempo Rosa iria passar no hospital. Dona Bernadina disse que não sabia. Talvez um mês.

-É muito. – Domingos estava com a voz embargada e os olhos lacrimejantes.

-Pior é quando não se volta mais.

-Rosa não pode morrer.

-Temos que rezar para que isso não aconteça.

Com a cabeça coberta por um pano, Rosa gemia no canto da carruagem. O cocheiro tangia os animais, imprimindo uma maior velocidade. Estavam passando por uma rua de sobradões coloniais com suas sacadas e mirantes. Um dos moradores desse sobrados, um português gordo, fumava um charuto na porta. Depois, entraram em uma esquina e subiram uma ladeira, dando em cima de uma fileira de casas de taipa, cobertas de palhas.

O hospital ficava nas imediações do Rio Bacanga. Dona Bernadina pensava no coronel. Observou que de uns dias para cá tinha ficado nervosa. Sozinha, quando o coronel estava com saúde, comandava serenamente os afazeres de casa, auxiliada por Rosa e Domingos. Agora, o peso das atividades domésticas aumentou consideravelmente.

Nas ruas, as pessoas se cruzavam com uma fisionomia de tristeza. Dona Bernadina notou que a epidemia de varíola tornou a população mais triste, Na cidade respirava-se um clima fúnebre. Os sinos das igrejas não paravam de tocar.

O cocheiro deu um freio brusco na carruagem. Tinha chegado ao hospital. Dona Bernadina desceu, acompanhada de Rosa e Domingos. Dentro do hospital, dona Bernadina conversou com o médico que mandou Rosa entrar numa sala para ser examinada,.

Depois, o médico chamou dona Bernadina, Comunicando-lhe que Rosa estava com varíola, e que ia colocá-la no isolamento.

A carruagem esperava dona Bernadina. Do alto em que ficava localizado o hospital via-se as águas caudalosas do Rio Bacanga, cujo leito corria em direção ao oceano. Pescadores em pequenas canoas desciam e subiam o rio em busca de peixes.

Da outra margem do Bacanga, a vegetação era densa, mostrando que por aí se estendiam léguas e léguas de sítios com seus manguezais. A brisa vinda do Bacanga era o melhor sedativo para os doentes do hospital.


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