Blog de Samuel Filho

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O almoço estava apetitoso (carne assada, salada, sopa, arroz, feijão e frutas). Juarez, que sempre tinha uma pilhéria a dizer, estava sério e estranho.

“Que foi gatão?” Antonio de Pádua perguntou com irreverência.

“O médico me deu alta”, disse Juarez com ar de tristeza.

“Vou perder um assessor para assuntos de xixi”, debochou Antonio de Pádua.

Juarez sorriu à força, abrindo demais os olhos. Ele foi a uma das janelas e contemplou o movimento de pessoas lá embaixo,  que entravam e saíam do hospital. Juarez sentiu saudades daquele ambiente. Durante o tempo em que peregrinou por diversos hospitais,  conheceu  gente amiga. Mais tarde um médico residente deu-lhe a guia de alta e uma receita para comprar remédios.

“Gordinho, até outra vez”, falou Juarez vestido em uma roupa nova,  especialmente guardada para usar quando tivesse alta. Juarez apertou a mão de outros pacientes que ficavam.

“Obrigado pelos favores, felicidade”, disse Antonio de Pádua, despedindo-se de Juarez.

Com o gorro branco e um avental, a encarregada de distribuir as refeições ia de porta em porta empurrando o carro de bandejões, que tinha um rangido bem característico que, de longe, despertava a atenção do paciente. Rápido, ela tratava os doentes com carinho:

“Seu Antonio tá para ir embora. O Juarez já foi. Só falta o senhor”.

“Espero que sim”, respondeu Antonio de Pádua , recebendo o bandejão.

“O senhor mora aqui ou no interior?”

“Aqui”.

O apetite de Antonio de Pádua aumentava. Entretanto, começava a enjoar a comida. O cardápio variava pouco. Ele fazia a digestão caminhando pela enfermaria.

À  tarde caía. Nuvens pareciam correr no espaço azul. Sentado, na janela, Antonio de Pádua admirava o espetáculo do universo. A sua perna direita ainda o incomodava em consequência de um inchaço provocado pelo longo tempo imobilizado na cama, segundo explicou o doutor Valter, que diagnosticou como sendo um edema  pós-operatório.

Antonio de Pádua dava sinais de estar se recuperando. O doutor Valter deixou de visitá-lo. Raramente ia ao seu leito. Dormia bem. O residente Batalha  falou a Antonio de Pádua que estava de alta.

“Você está dando muita despesa. Te  manda”, brincou Batalha. “Daqui a uma semana você retorna para tirar os pontos. Cuidado com o diabetes e se consulte com um endocrinologista”.

Antonio de Pádua fitou a sua barriga costurada. Tremeu ao pensar que ia voltar. O umbigo estava torto e uma enorme cicatriz o acompanharia pelo resto da vida.

No taxi, a caminho de casa, Antonio de Pádua compreendeu porque Juarez fora embora sem entusiasmo. Ele acostumara-se, como Juarez, ao cotidiano de dor e de sofrimento do hospital. Sentado no banco de trás, ao lado de dona Francisca, desejou saúde a todos os doentes do mundo. As paisagens da cidade atraíram a sua atenção. Por sorte, estava revendo ruas, avenidas e pontes da metrópole. O dia-a-dia da cidade prosseguia indiferente às dores dos pacientes que sofriam nos hospitais.

A casa estava diferente aos olhos de Antonio de Pádua. Emocionado, cumprimentou os gatinhos que não se animaram ao vê-lo, como se jamais o tivessem visto e brincado com ele. Sentou-se na cama devagar, tirou a camisa para deixar a cicatriz mais livre. Deitou-se e dormiu pesado de emoções.

Dona Francisca providenciou a alimentação de Antonio de Pádua: carne moída com verdura. A cada barulho da sua filha  Cristina,ela repreendia:

“Cristina, fala baixo para não acordar o Antonio. Te comporta  menina”.

“O quê?” Indagava a menina.

“Tu és surda menina? O Antonio está operado e precisa de silêncio”, explicava dona Francisca.

“Sim, senhora”.


 Domingo. Lá fora, via-se a claridade do sol. Os sinos de uma igreja repicavam, chamando os fiéis para a missa. Antonio de Pádua teve vontade de assistir à missa como nos tempos de menino. Aliás, desde a infância, nunca mais entrara numa igreja. Tinha se tornado um agnóstico na juventude, por influências de leitura de alguns pensadores materialistas. Sentia prazer de negar a importância da religião e do sobrenatural. Agora, saindo de um sofrimento, sentiu até o cheiro de incenso vindo da igreja. Era só imaginação, porque a igreja ficava longe dali.

Antonio de Pádua orou mentalmente, sem balbuciar as palavras. A oração era a mesma que criará no paroxismo do sofrimento ao defrontar-se com a morte. Ai,  Antonio de Pádua percebeu com toda a clareza que não era ateu. Todos os valores cristãos incutidos na infância vieram à tona. E Deus reapareceu em sua consciência.

                                                           

 

Ia  tirar a barba, pela primeira vez, depois da operação. Criou coragem para se encarar no espelho do banheiro. Mirou-se e se achou magro, quase defunto. Os olhos castanhos estavam refletindo dor, os cabelos crespos nunca mais tinham sido penteados. Os lábios finos estavam pálidos. Frente ao espelho, Antonio de Pádua lembrou-se de sua imagem,  quando fora  ao banheiro , após a cirurgia com a sonda no nariz. Naquele instante, desconheceu-se a si próprio.

Para matar o tempo, Antonio de Pádua lia até as colunas sociais dos jornais e os anúncios , o que geralmente não fazia. Até detestava isso. Estava deitado, absorvido na leitura, quando Juarez puxou o dedão do seu pé.

“Não faça isso”, pediu aborrecido Antonio de Pádua.

“Morreu uma velha…”, disse Juarez sorrindo.

“De quê?”

“Câncer. Não havia jeito. Já levaram o corpo dela para o necrotério”.

Antonio de Pádua interrompeu a leitura do jornal, abalado com a notícia de Juarez. Rezou para si  mesmo sem que ninguém notasse.

No último dia de visita aos doentes do hospital, um pastor protestante esteve no leito de Antonio de Pádua. Distribuiu para ele e para os outros um jornal de sua seita religiosa. O homem chamou a todos a orar. Antonio de Pádua ficou mudo e não rezou. Depois, sozinho, justificou a Deus porque não  orara com o pastor. Antonio de Pádua disse a Deus que o importante era a fé e não as igrejas. Assim estava livre de um problema de consciência. Mas admitiu consigo mesmo que não rezou em público por vergonha. 


 

Chovia forte. Trovões estouravam no céu. Foram desligados os dois ventiladores do teto e fechadas as janelas. Era hora de dormir. Os pacientes dormiam após às 23 horas. Os gritos de um doente de outro apartamento perturbaram o hospital.

“Ô  meu pai Eterro… ô meu pai Eterro…”

Aborrecido, Juarez mexeu-se na cama e desabafou:

“Ninguém pode dormir com esses gritos”.

“Quem é?” Antonio de Pádua quis saber.

“ É o Cristóvão. Ele se queimou com álcool do pescoço aos pés. No dia em que não faz o curativo e termina o efeito da anestesia, ele começa a sentir dores”, conta Juarez.

A dor de Cristóvão atingia Antonio de Pádua. Sensibilizado, rezou para Deus amenizar  o sofrimento de Cristóvão. Orou para a Providência Divina poupar a si próprio de mais dores e agradeceu à bondade de Deus.

Cochilou e se viu numa estrada escura, amedrontado por uma rês furiosa, que soltava berros ameaçadores. Paralisado de medo, Antonio de Pádua ouviu o aboio de um vaqueiro,  que domou a rês e ele pôde seguir em frente.

No outro dia ,  impressionado com essa visão, interpretou-a como sendo uma manifestação de Deus. Para ele,  a rês era a morte;o  vaqueiro era Deus; e a estrada uma transição entre a vida e a morte. O vaqueiro determinou que Antonio de Pádua tivesse permissão para continuar vivendo.

A limpeza do hospital era feita com zelo. Os rapazes, fardados de azul e calçados com botas, jogavam água sanitária e enxugavam o chão. O banheiro tinha um tratamento mais rigoroso. Os pacientes sempre se queixavam do mau cheiro do banheiro. Bastava que alguém abrisse a porta, para que exalasse fedor. Melhorava depois da limpeza. Juarez, que era uma espécie de porta voz dos doentes, pedia aos faxineiros que caprichassem na tarefa. No final do trabalho, Juarez distribuía alguns cigarros para eles.

Em companhia de Batalha, o doutor Valter chegou ao leito de Antonio de Pádua. Tirou o esparadrapo que cobria o corte da cirurgia. Olhou e falou com sua voz mansa:

“Está bom. Dentro de poucos dias, vamos fechar isso”.

“Tomara. Minha paciência atingiu o limite”, disse Antonio de Pádua.

“Não vá perder  a paciência agora que você está quase restabelecido”, observou Batalha.

“O diabetes está controlado”, assegurou o doutor Valter. “Vamos encerrar a aplicação de insulina e soro. Você tem que caminhar hoje”.

O doutor Valter saiu. Alegre, Antonio de Pádua riu para Juarez. Estava aliviado dos soros e antibióticos que tomava todos os dias. Seus braços estavam livres para se movimentar.

“Vamos caminhar gordinho”, convocou Juarez.

“Pode ser”, concordou Antonio de Pádua.

“Levanta macho”, disse , segurando-o pelo braço esquerdo.

Antonio de Pádua sentou-se na cama e ficou tonto.

“Desce e bota os pés no chão. Calça a japonesa. Não fica com medo, eu te seguro”.

Trêmulo, Antonio de Pádua pisou no chão. Sentiu um rápido mal estar nos pés, como se estivessem cravados de espinhos por dentro. Encostado na cama, deu alguns passos em frente, apoiando-se em Juarez. Caminhou um pouco e pediu para voltar à cama.

Meiga como sempre, dona Francisca alegrou-se com a notícia de que seu marido tinha caminhado.

“Mais tarde, você tenta andar outra vez até ir melhorando”, falou dona Francisca. “Você quer comer maçã?”

 

“Não. Só posso comer o que é prescrito pelo médico. Eu quero que você compre jornais para mim todos os dias”, disse Antonio de Pádua , deitado,  olhando para um paciente recém operado.

No auge da crise, Antonio de Pádua pensava que não iria mais andar com as próprias pernas, tal a fraqueza em que se encontrava. Superada a dificuldade da primeira vez, passou a caminhar normalmente.

Veio a preocupação com a sua magreza. Tinha perdido quase 20 quilos. Os braços, as pernas e o tórax estavam finos. As costelas apareciam. Nem parecia aquele homem gordo, bem roliço, rosto cheio, barriga proeminente e pernas grossas. O contraste era surpreendente. Antonio de Pádua parecia  um cadáver em comparação com o outro sadio, antes da doença. 


A maneira de andar do residente Batalha era conhecida. Caminhava balançando o corpo atlético. Forte e alto, tinha uma voz mansa. Vestido em sua impecável roupa branca, aproximou-se de Antonio de Pádua:

“Quem mandou tirar a sonda?” perguntou com surpresa.

“Foi o doutor Valter. Já estou me alimentando”, disse Antonio de Pádua.

“Ele está melhorando”, afirmou dona  Francisca

O doutor Batalha se preparou para o curativo. Antonio de Pádua fechou os olhos,  ao ver a bandeja com remédios.

“Endireita as pernas”, disse Batalha.

“Não suporto mais esse curativo”.

A mulher de Antonio de Pádua acompanhava, fechando o rosto, como se fosse nela o curativo. O marido fazia cara de sofrimento e de dor, mesmo sem estar doendo.

Satisfeito, metido numa bata que o tornava mais baixo, barba rala e por fazer, doutor Valter chegou:

“Bom dia, Antonio. Continua melhorando, não é?”

“Graças a Deus”.

Antonio de Pádua vinha observando entre médicos, enfermeiras e pacientes e consigo próprio que o nome de Deus era invocado constantemente. Depois das igrejas, os hospitais são os lugares onde se fala mais em Deus.

“Vamos andar senão você pode ficar com uma lesão nas costas”, recomendou o doutor Valter.

“Como? Não consigo nem ficar sentado na cama”.

“Você vai ter que fazer um esforço. Eu e o Batalha podemos lhe ajudar. No começo a gente sente tontura, mas passa logo”.

Terminado o curativo, Batalha e Juarez levantaram Antonio de Pádua, Segurando-o nos braços, Antonio de Pádua sentou-se no leito. Contemplou pelas janelas da enfermaria as grandes árvores que emprestavam um aspecto de bosque à área externa do hospital. Antonio de Pádua permaneceu somente alguns minutos e pediu para deitar-se.

“Rapaz, você vai ter que se levantar  várias vezes ao  dia até conseguir caminhar normalmente”, advertiu Batalha.

Dona Francisca saiu para comprar um remédio que não havia no hospital. Deu “até logo” com carinho. Vestia uma roupa que combinava com sua cor morena clara e cabelos pretos.

De manhã, era intenso o movimento de médicos, estagiários e empregados que circulavam pelos corredores e dependências da enfermaria. Nessa hora, auxiliares trocavam as roupas de cama. Elas se dirigiam primeiramente para Juarez:

“Nosso hóspede, Juarez, quando vai pra casa?”.

“Depende de cicatrizar do meu pé”, respondia Juarez,  com ironia.

“E o senhor, seu Antonio?”

“Estou melhorando, voltei a comer”.

“Que bom. Quer tomar um banho?”, perguntou uma delas.

“Quero. Faz quatro dias que não sei o que é isso”.

A mulher providenciou uma bacia cheia d’água e algodão. Colocou a bacia em cima da cama. Começou a dar o banho pela cabeça e em seguida os braços.

“Esse é banho de português”, comentou Antonio de Pádua.

“Seu  Antonio vire pra o lado direito”, pediu a mulher gorda, que queria banhar as costas do paciente.

Enquanto uma banhava, a outra enxugava a toalha.

“Um banho é bom pra animar, não é Antonio?”

“A minha vontade é ficar debaixo de um chuveiro”.

“É, mas, agora, o senhor não pode”, disse a gorda.

A troca de lençóis veio depois. Viraram o paciente de um lado e introduziram o novo lençol, de uma forma que ficava do mesmo jeito, como se fora colocado sem que houvesse paciente deitado. Para aqueles que caminhavam, elas pediam que se levantassem para mudar as roupas. Entregavam bermudas e camisas azuis.

A nutricionista apareceu para fazer o acompanhamento da dieta dos doentes.

“O senhor está comendo bem?”, ela indagou polidamente.

“Sem problemas”, falou Antonio de Pádua.

“Então, vamos ,  a partir de hoje, para uma dieta mais sólida”.

“O gordinho precisa comer mais. Tá magro. Quando chegou aqui era gordo”. Juarez penteava os cabelos lisos, pretos e grandes. Ria mostrando os dentes pontiagudos.

“O Juarez come muito bem, né?” A nutricionista ironizou.

“Bote bem nisso. Ele come igual a um cavalo”, aparteou um paciente.

Juarez comia a refeição dele e de outros que estavam sem apetite. Além disso, comia ainda os biscoitos que dona Francisca lhe oferecia.

Dona Francisca dava a comida na boca de Antonio de Pádua. Estava comendo arroz, feijão, carne e salada. Ele mastigava devagar e reclamava da pressa da dona Francisca.

“Espera aí, não posso engolir tudo de uma vez”, falava Antonio de Pádua.

“Estou dando devagar”;

“Que nada”. Antonio de Pádua levantava a mão, afastando a colher cheia.

Antonio de Pádua estava comendo tão pouco que um bandejão dava para ele e a mulher comerem.


Entrou o médico  residente Batalha, que fazia curativos em Antonio de Pádua. Houve dificuldades para cicatrizar o corte da operação, porque Antonio de Pádua era diabético. Doutor Valter decidiu deixar aberto o corte até que o diabetes fosse controlado com doses de insulina. Diariamente, era feito curativos.

Com uma bandeja nas mãos,  contendo éter, soro, água oxigenada, esparadrapo, gazes etc. Batalha ia ao leito de Antonio de Pádua ,demonstrando disposição e vigor físico para as suas atividades de médico.

“Está melhor, rapaz?” Batalha ia colocando as luvas de borracha nas mãos.

Antonio de Pádua sofria antes do curativo:

“Só me sentirei melhor depois de fechado esse buraco. Detesto curativo”.

“Mas é necessário para evitar infecção”.

Batalha derramava soro no corte e limpava com gazes.

“Está doendo?”

“Está  sim”.

“Que nada. Deixa de manha. Não há mais infecção. Olha, aqui, as gazes sem pus”.

Batalha mostrava com a pinça as gazes.

“Eu quero saber quando vão pontear esse buraco”, falou Antonio de Pádua, revelando impaciência.

“Depois que o diabetes estiver sob  controle. Já tomaste insulina hoje?”

“Não”.

Antonio de Pádua sentia azia. Irritado com a sonda, limpava com um pano a saliva que saia da boca. Pensou que era melhor morrer do que sofrer muito. Não tinha sentido ficar sem dormir, comer e beber, imobilizado numa cama.

A angústia da morte penetrou fundo em Antonio de Pádua. Anteviu até o seu caixão, de cor marrom, saindo de casa para o cemitério. Nesse instante, agarrou-se com todas as forças a Deus. Queria viver mais. Era muito cedo ainda para morrer. Antonio de Pádua assemelhava-se a uma criança abandonada pelos pais. Rezou apelando para a bondade divina.

Sua tristeza aumentou ao perceber o contraste entre a morte e a vida palpitante de um novo dia que amanhecia. Animado pela música de uma emissora de rádio, fechou as mãos querendo se apoiar em algo.

“Gordinho, tá  te sentindo mal?”

Era Juarez que se levantava para ir ao banheiro.

“Tem que sair toda a secreção. Não desanima ou você não é homem?”

“Me  dá aí o papagaio?”

Papagaio é um objeto parecido com  um cantil militar, onde mijam os doentes que não podem andar. Juarez deu o papagaio.

“Teu mijo está fedendo muito”, disse Juarez.

“Pior é que estou querendo cagar. Traz aí a aparadeira”, rogou Antonio de Pádua.

“Cacete é hoje…”

Juarez correu ao banheiro, pegou a aparadeira  e colocou de baixo da bunda de Antonio de Pádua.

“Tua merda tá  podre. Não tem quem aguente”, afastou-se Juarez com a mão no nariz.

Depois, Juarez recolheu a aparadeira,  limpou-a no banheiro e retornou com ar de nojo.

“Gordinho, tua merda parece cola. E fede muito. Tu tá me devendo um favor que dinheiro nenhum paga”.

De óculos escuros, doutor Valter visitou cedo Antonio de Pádua.

“Doutor, já mijei,  peidei  e caguei”, anunciou Antonio de Pádua como se estivesse dizendo uma boa nova.

Os pacientes riram.
“Isso é bom. Como está a secreção? Ah, parou”, constatou alegre o cirurgião. “Vou mandar tirar a sonda do nariz”.

Contente, Antonio de Pádua  respirou aliviado. Doutor Valter apalpou a barriga do paciente e disse que ele podia tomar líquido.

A mulher de Antonio de Pádua, dona Francisca, chegava cedo. Ela tinha um permanente que lhe dava direito a livre trânsito no hospital até às 8 horas da noite. Dona Francisca, com gestos calmos, dedicava-se inteiramente ao marido.

Uma vez, dona Francisca trouxe um bonito rosário de pedras roxas para Antonio de Pádua.

“Está aqui um rosário que o doutor Prazeres mandou para você. Ele desejou sua melhora”.

“Sim. Eu não sei rezar com rosário. Estou orando do meu jeito. O importante é ter fé em Deus”.

Dona Francisca sorriu com ternura. Mostrava-se satisfeita, porque o marido estava melhorando. Tomava todos os cuidados necessários à recuperação de Antonio de Pádua. Dona Francisca chamava a atenção pelo carinho como tratava as pessoas. Transmitia simpatia com seus gestos cordiais.


 

O estado de saúde de Antonio de Pádua se agravou. Os pontos da barriga não cicatrizaram e o doutor Valter abriu-os, um a um, com uma gilete. Antonio de Pádua  tremeu quando viu o corte da cirurgia, que começava à altura do tórax e ia até o umbigo.

“Ele vai ter que voltar para a sala de operação”, disse o doutor Valter com o semblante preocupado.

“Como?” Indagou o médico residente Batalha.

“Vamos ter que abrir outra vez”, repetiu o doutor Valter. “O paciente continua com muita secreção, mesmo após vários dias de operado. Isso não é normal”.

“Não suporto outra operação”, falou Antonio de Pádua.

“Calma. E uma coisa simples. Vamos apenas fazer uma avaliação”.

Somente para si mesmo Antonio de Pádua rezou a mesma oração. Dona Francisca, sua mulher, chorava, enquanto limpava a saliva que escorria abundante da boca do marido. Duas auxiliares de enfermagem, vestidas de azul, o levaram para o centro cirúrgico.

Na primeira vez, enfrentou com firmeza a operação. E verdade que antes de entrar na sala de cirurgia chegou a suar frias as mãos e os pés tremiam. No entanto, controlou-se, deitado na cama estreita, com os braços colocados em forma de cruz.

Aplicaram-lhe uma anestesia geral e adormeceu. Acordou mais de quatro horas, após a operação, falando coisas desconexas. Era como se estivesse saindo de um longo pesadelo.

Agora, pela segunda vez, estava nervoso. Temia a picada da agulha do aparelho de anestesia. Colocaram  um pano em sua frente, para que não visse a cirurgia. Veio a dormência do abdômen aos pés. O cirurgião abriu a barriga de Antonio de Pádua, que se sentiu igual a um boi esquartejado. O médico mexeu rápido em suas vísceras, limpando-as.

“Ainda havia pus”, disse o médico, tirando a máscara.

“Ele defecou. Vamos trocar os lençóis”, afirmou uma enfermeira.

Na enfermaria, Juarez, paciente do leito 112, quis saber sorridente:

“Como foi lá, gordinho?”

“Só Deus pode me livrar dessa”, exclamou Antonio de Pádua. “Estou rezando para mim e para os outros. Rezei para ti também”.

“Obrigado, gordinho”. Juarez riu alto. “Como tu viste a morte?”

“Rapaz, eu vejo a morte toda hora em minha frente”.

“Chegaram  hoje dois que vão se operar amanhã”.

“De quê?”

“Do estômago”.

Sempre rindo, Juarez caminhava de um lado para o outro, mancando da perna direita.

“Eles já sabem que vão tomar chá de bico?” Juarez fez a pergunta e  contagiou o ambiente com sua gargalhada escandalosa. Chá de bico é uma lavagem de bumbum  a que os pacientes são submetidos antes da operação.

“Vocês nunca tomaram chá de bico?” Juarez continuou a brincadeira. “Aquela senhora, ali, é quem dá o chá de bico”, disse Juarez apontando para uma mulher que conversava perto;

A mulher se aproximou de Juarez.

“O que é  Juarez, tu ainda não foste pra casa? Aqui não é hotel”.

“Estou esperando que os homens me mandem embora. Aqui, têm dois que vão para o chá de bico”

“Se preparem que eu venho buscar vocês antes da dez horas da noite”. A mulher dirigiu-se aos novos pacientes.

Jovem e educado, o doutor Valter parecia que tinha nascido para ser médico. Todas as manhãs, ele ia ver Antonio de Pádua.

“Como está? Ele apertava a barriga do doente.

“Do mesmo jeito. Essa sonda, doutor, está me incomodando demais”, queixou-se Antonio de Pádua.

“A sonda só pode ser retirada quando a secreção acabar. Deve estar perto”.

Para Antonio de Pádua a secreção escura que vinha do estômago, através da sonda, não ia mais terminar. O seu caso era fora do comum, porque os pacientes operados de vesícula recebiam alta em menos de uma semana. Antonio de Pádua tinha ainda um dreno, no lado direito do abdômen, de onde saia uma secreção amarela que fedia a ovo podre.

Na hora das refeições, Antonio de Pádua ficava mais chateado, pois não podia comer. A funcionária encarregada de distribuir a comida,  passava pelo leito 111 e repetia todas as vezes:

“O senhor tá com dieta zero. Para o Juarez não não  tem”, brincava,  colocando o bandejão  em cima da mesinha de cada leito e saia empurrando o carro de comida.

“O Juarez é pior do que gato em hotel”, gracejou  um paciente. “Só faz dormir e comer”

Com apenas três dedos no pé direito coberto de gazes, Juarez contava que fazia mais de dois anos que vivia de hospital em hospital. Nesse estava com três meses; falava emocionado do seu sofrimento; Recordava que num desses hospitais um paciente, já recuperado, chorou ao vê-lo desesperado de dor. Por isso, aprendera a ser solidário com os outros.

Juarez trabalhava como pedreiro no interior. Era casado e pai de três filhos.

Uma pancada violenta em acidente  de trabalho provocou o rompimento das veias de sua perna direita.

“Daí começou minha peregrinação pelos hospitais. Vocês me veem rindo, agora, é porque  tou melhor. Sofri dores horríveis. Isso que vocês estão passando não é nada perto do que sofri”.


A enfermeira ligou a luz. Era meia-noite. Ela se aproximou do leito 111. O paciente Antonio de Pádua despertou assustado de um dos seus raros cochilos.

“O senhor se espantou?” A enfermeira perguntou com um aparelho de medir pressão no pescoço.

“Sim. Eu estava cochilando. Não consigo dormir direito, desde o dia em que me internei”, disse Antonio de Pádua com a voz fanhosa devido a  uma sonda enfiada no nariz.

“Parece que o senhor passa a noite olhando para o soro”.

“Acontece que não dá para dormir com essa sonda, um dreno, uma subclávia e um cateter”. Antonio de Pádua fez uma cara feia  , quando a enfermeira introduziu uma agulha na veia para o soro correr  para o organismo.

“A sua veia é muito difícil”, comentou a enfermeira colocando um esparadrapo no braço de Antonio de Pádua. “Está perto do senhor se livrar disso tudo. Basta ter paciência e fé em Deus”.

“Paciência eu tenho até demais”.

“Boa noite. Procure dormir”, disse a enfermeira.

Antonio de Pádua estava com mais de 10 dias sem comer e sem beber. A sede lhe torturava. Sua vontade era mergulhar num rio e beber até encher a barriga. Com a sede que sentia , seria capaz de trocar, naquele momento, a vida por um litro d’água. Os médicos e enfermeiras lhe explicavam que estava com dieta zero, por isso, não podia beber. Para enganar a sede davam-lhe algodão molhado para passar apenas nos lábios.

A sede ardia por dentro de Antonio de Pádua. A impaciência crescia, mas se acalmou ao ter a ideia de beber a água mineral do paciente vizinho. Aproveitou o sono dos doentes e bebeu devagar como se estivesse evitando que o líquido lhe fizesse mal. Depois, teve a sensação de que a quebra da dieta ia fazer mal à operação de vesícula, e que  podia morrer. Olhou para o ventilador do teto e orou.

-Meu Deus,  protegei-me, amparai-me e irradiai saúde para o meu corpo. A partir de agora, serei Vosso servo.

Essa oração era surpresa, porque desde menino, ele deixara de rezar. A primeira comunhão fora seu último ato religioso.


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