Blog de Samuel Filho

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Paciente diabético, tenho várias internações nos hospitais públicos de São Luís. A primeira delas, foi no Hospital Universitário, há mais de vinte anos passados. Quase morria, com a cirurgia de vesícula em que os pontos da barriga não seguraram devido o diabetes. Foram importantes o empenho dos médicos José Gualhardo Alvares dos Prazeres e Gutemberg Araújo. Escapei milagrosamente de não ter morrido.

Depois meu pé direito quebrou e fui para o Socorrão II. Foram três internações só com esse pé. A partir dai, começou meu calvário pessoal de andanças para colocar o pé no lugar. A solução que deram foi colocar uma placa para firmá-lo, mesmo torto. Fiquei então cadeirante.

Em 2006 foi extirpada a perna esquerda, restando-me uma perna torta em uma cadeira de rodas, amputada há dois meses atrás no Socorrão I. Nessas internações tive delírios que superam as ficções sobre enfermos. Vou aqui lembrar a mais recente. Operado há poucas horas, sob intenso cuidado das enfermeiras, que aplicavam nas minhas veias antibióticos, analgésicos e outros para atacar com êxito a amputação do velho pé direito.

Lá pela madrugada sem dormir, ouvi choro de criança nascendo, o que muito me emocionou, embora não fosse realidade, porque só havia ali pacientes adultos. E assim dominado por delírios vi santos e santas me confortando para resistir à morte. Nesse momento ainda estou me recuperando, mas fora de perigo, controlando o diabetes para curar o coto ainda sensível às movimentações. O coto velho está ágil e me ajuda a subir e descer da cama.


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Meu diabetes já me levou as duas pernas
para as profundas do aterro sanitário
imaginei que não sofreria mais dor
o coto dói como se estivesse
esmagado por uma máquina de triturar ossos
os membros inferiores amputados
são ressuscitados pelo cérebro
deposito de nossas sensações
a dor do coto é fogo é fantasma
sempre presente com ossos ausentes

Dor de cabeça de dente de barriga
jamais se compara a do coto
que supera talvez a da própria morte
uma médica prescreveu a mim
até morfina para aliviar o coto

Em poucos meses ei-la a me atacar
como se fora estacionamento privado do inferno
agora, que tenho dois cotos
a dor aumenta triplamente
mas enfrentarei a miserável
com um analgésico potente


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Em minha casa somos três: eu, Socorro (mulher) e a filha Raquel. A doméstica trabalha durante o dia. Temos um silêncio agradável e de vizinhos nada barulhentos. Somente o trânsito da rua incomoda.

Como sou de uma geração de poucos carros, gosto de silêncio, não de solidão. O escritor argentino Jorge Luiz Borges exaltava os encantos da solidão. O poeta Carlos Drummond de Andrade escreveu uma vez em suas crônicas no “Jornal do Brasil”, anos 70, que podemos nos sentir sós no meio da multidão, mas cheio de sociedade, solitários.

Como não sou Robson Crusué, o silêncio é que me encanta, com gente por perto. A madrugada é fascinante com o cantar do galo, coisa rara nas metrópoles. Aqui, no quintal, ainda temos um e algumas galinhas, criação de Socorro. É bonito ouvi-lo cantar, o gogó dele parece um saxofone. É o momento em que curto mais o silêncio.

Nesses dias de coto ainda enfermo, mergulho queira ou não no silêncio matutino, vespertino e noturno. Até a música que ouço pela manhã é em volume baixo. Uma voz alta já me perturba.


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Aqui, no meu deserto particular, faz quarenta dias que me restabeleço da cirurgia da perna direita, após uma década de ter perdido a esquerda.  Ironizando, nem por isso me tornei um militante de direita. E, agora, pior ainda, sem os dois membros inferiores, não sou nem de direita nem de esquerda. Muito menos neutro, a amputação foi nos pés e não na cabeça.

Nesse período, só escrevo blog uma ou duas vezes por semana. Perdi a motivação de escrever pequenas coisas nas redes sociais, principalmente a policanagem de varejo e também de atacado. É difícil para quem sempre escreveu sobre politica e literatura. Prefiro hoje as letras, a arte dos deuses. Politica como dissera uma vez é a arte do diabo.

Talvez esteja quase bom do coto até o inicio de junho, mês das belas tentações do bumba-meu-boi.  Aí voltarei a fazer as coisas que gosto, como ver gente na praia, meu lazer predileto. O mar me dar energia e uma visão infinita do mundo e me inspirou crônicas reunidas no cd O MAR DE UPAON-AÇU, dedicado aos 400 anos de São Luís do Maranhão, ilha que me acolheu há 40 anos, como perseguido pela ditadura militar de 64, também foragido do Rio de Janeiro, onde trabalhei como jornalista e mantinha ligações clandestinas com uma organização de esquerda.

São Luís é a terra do meu pai, falecido nos anos 70, por sorte do destino, parece que nasci aqui; fiz amigos e inimigos. Contabilizando perdas e ganhos, nunca conheci uma cidade com um tesouro poético tão valioso, verdadeiro patrimônio da humanidade. Sou piauiense de Teresina, a cidade verde, da qual guardo velhas e caras lembranças, que me assaltam nesses dias de repouso diabético, deitado na cama de  papo para cima, até  que volte a andar na minha cadeira de rodas.


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O dicionário de Caldas Aulete diz que coto significa a parte restante de membro amputado. Ainda cultivo o velho hábito de consultar o pai dos burros em vez do Doutor Google.

Tenho hoje um coto velho e um novo. Este ainda me incomoda, devido continuar enfermo nessa fase pós-operatória. O antigo vem me surpreendendo ao dispensar ajuda de outras pessoas, quando quero sair da cama de manhã para tomar café ou em outra hora. Se já adquiri essa habilidade de me movimentar com um coto, imagino que as coisas vão melhorar com os dois se movimentando ao mesmo tempo.

Por enquanto, não passo mais de duas horas sentado na cadeira de rodas para evitar dores que são insuportáveis, apenas amenizadas através de analgésicos potentes. Escreverei sobre a dor em outro artigo.

De manhã, o tempo passa com mais leveza. À tarde, já fico inquieto e irritado. Ainda bem que me ocupo ditando blog ou acessando as redes sociais. À noite, me acalmo. Janto às 18 e durmo lá pelas 22 horas, sob efeito de um comprimido de rivotril, ansiolítico em moda e elogiado por especialistas do cérebro.

Ia me esquecendo de que voltei a fumar durante alguns dias, tal a força da prisão domiciliar com tornozeleira da doença. Fumei cigarro de baixo teor de nicotina. Acredite se quiser na propaganda da embalagem. Depois, resolvi experimentar cachimbo.  Foi pior. A tosse do velho fumante retornou, após 4 anos livre da maldição do capeta Sousa Cruz. Livrei-me novamente dele.


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“Meu caro poeta Samuel,

lastimo muito o que c om você aconteceu. Gostaria de ter a sua resistência, pois comigo, que fui acometido de um câncer no esõfago ( extraído numa cirurgia que durou l2 horas, substituindo-o pelo estômago, ainda estou sofrendo terrivelmente as consequências físicas e psicológicas dela decorrentes. A vida é uma caixa de surpresas desagradáveis, sobretudo aos espíritos criadores, categoria em que você se inclui com excelência e méritos. Estamos passando, caro amigo, por nossa verdadeira estação no inferno.  Vamos remar nosso frágil barco, até arremessá-lo no incognoscível, para encontrarmos aquele “novo”, conforme o poema baudelereano. ” Inferno ou céu, porco importa”, diz-nos o genial poeta das flores do mal. Para você, velho amigo, o abraço compartilhado

de quem, por sua parte, conhece também o que é o verdadeiro sofrimento.

nauro machado”

Por e-mail, o genial poeta Nauro Machado enviou para mim uma mensagem, que me causou uma surpresa intraduzível.

O belo texto do grande vate maranhense, que já pontifica no monumento de Gonçalves Dias, Sousândrade, José Chagas e outros, revela a nossa condição humana e existencial.

Fomos, meu poeta, colhidos pela tragédia: você perdeu o esôfago e eu a segunda perna de cadeirante.

O inferno é aqui mesmo. Diferentemente, João Paulo II disse que o céu não tem espaço físico. O inferno tem espaço terrestre, onde vivemos atacados pelo principado do mal, como as guerras, o poder político e econômico e as personalidades doentias, que iguais a satanás só buscam fazer o mal.

A sua poesia está entre as maiores obras literárias do mundo, que tive o privilégio de conhecer. Você é imortal com ou sem vida.


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Nasci com duas pernas em 1947,
perdi uma há dez anos,
agora foi amputada a segunda,
sou um bebê idoso.

Dependo de cadeira de deficiente para locomoção
e de acompanhante e da ajuda de outras pessoas.
Passo o dia mais na cama para descansar o coto,
ainda em recuperação.

Ouço música pela manhã,
talvez seja daqui para frente a minha principal ocupação.
A musica substitui muito bem
a conversa com outra pessoa ou grupos.

Tentei ser musico, mas não era minha vocação.
Sou um inveterado ouvinte da arte de Orfeu.
Gosto de todos os gêneros e aprendi
com o saudoso jornalista e politico Artur da Távola
a curtir música clássica
no programa que dirigia na TV Senado
intitulado “Quem Tem Medo de Música Clássica?”

Hoje não perco aos sábados na TV Cultura de São Paulo.
as exibições das nossas e as de outros países
das orquestras filarmônicas.

Assim vou levando a vida
de deficiente físico.


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